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Prudência

PRUDÊNCIA

 

A prudência é o olho de todas as virtudes. (Pitágoras)

 

A prudência forma, junto com a coragem, a temperança e a justiça, o conjunto das quatro virtudes cardeais da Antiguidade e da Idade Média.

Dentre todas as virtudes, a prudência talvez seja a mais esquecida em nossos dias, o que não significa que não precisemos mais dela.

Mas o que significa prudência, afinal?

 

A palavra prudência vem do termo grego phronésis, que é uma espécie de sabedoria prática, sabedoria do agir, para o agir e no agir.

É uma virtude que pode ser considerada como a gestora ou governadora das demais virtudes.

É a prudência que escolhe os meios para atingir os fins. Trata-se de uma virtude intelectual que tem a ver com  o  verdadeiro,  com  o  conhecimento e  com a  razão.

Poderíamos dizer que essa virtude é um instrumento da razão, e é o próprio bom senso. Pode ser comparada a um farol, a uma bússola, a um radar, a um termômetro, e serve para guiar os homens nos caminhos da vida, em todas as situações.

 

Segundo o filósofo grego Aristóteles, a prudência é a disposição que permite deliberar corretamente sobre o que é bom ou mau para o homem e agir em consequência, como convier.

Segundo o filósofo francês André Comte-Sponville,[1] prudência é o que poderíamos  chamar  de  bom  senso,  mas  que  estaria  a  serviço  de  uma  boa vontade. Ou de inteligência, mas que seria virtuosa. É nisso que a prudência condiciona todas as outras virtudes; nenhuma, sem ela, saberia o que se deve fazer, nem como chegar ao fim que ela visa, que é o bem.

Santo Tomás bem mostrou que, das quatro virtudes cardeais, a prudência é a que deve reger as outras três: a temperança, a coragem e a justiça, que, sem ela não saberiam o que se deve fazer, nem como; seriam virtudes cegas ou indeterminadas (o justo amaria a justiça sem saber como, na prática, realizá-la; o corajoso não saberia o que fazer de sua coragem, etc.), assim como a prudência, sem elas, seria vazia ou não seria mais que habilidade.

A prudência tem algo de modesto ou de instrumental; ela se põe a serviço de fins que não são os seus e só se ocupa com a escolha dos meios. Mas é isso que a torna insubstituível: nenhuma ação, nenhuma virtude – em todo caso, nenhuma virtude em ato – poderia dispensá-la. A prudência não reina (mais vale a justiça, mais vale o amor), mas governa. Ora, que seria um reino sem governo? Não basta amar a justiça para ser justo,  nem amar a paz para ser pacífico; é preciso, além disso, a boa deliberação, a boa decisão, a boa ação. A prudência decide e a coragem provê.

É então que é necessário querer não apenas o bom fim, mas os bons meios que conduzem a ele!

Não basta amar os filhos para ser bom pai, nem querer o bem deles para fazê-lo. Amar, diria o humorista, não dispensa ninguém de ser inteligente. Os gregos o sabiam, e talvez melhor do que nós.

 

Como governadora, é a prudência que deve examinar as vantagens e desvantagens de se satisfazer os desejos ou não, de se submeter voluntariamente a um sofrimento hoje, para evitar um sofrimento maior no futuro.

É por isso, por exemplo, que o prudente vai ao dentista embora saiba que vai sofrer, porque sabe que evitará uma dor maior no futuro.

 

A prudência também pode ser percebida na natureza. Por que algumas árvores perdem suas folhas, no outono?

Por prudência. A natureza, prevendo que os dias serão mais curtos e a luz solar diminuirá no inverno, sinaliza às árvores que chegou o momento de tomar providências com vistas à própria sobrevivência.

A árvore então deixa de produzir clorofila, as folhas tornam-se amareladas e caem. É uma espécie de auto-amputação que a árvore promove, produzindo um ácido que se acumula na base da haste das folhas e mata as células daquela região. Não precisando mais alimentar as folhas, a árvore poupa energia para sobreviver até a chegada da primavera. Então, novamente a folhagem surge verde e exuberante.

É uma sábia estratégia da prudência, sem a qual provavelmente a árvore morreria.

Obviamente a árvore não é inteligente, mas é dotada de um instinto inteligente, previdente e providente.

 

A prudência é virtude sempre presente, mas também previsora ou antecipadora. O homem prudente é atento a tudo. Ele presta atenção ao que acontece, ao que pode acontecer, sem desconsiderar o que já aconteceu, e jamais toma decisões precipitadas.

É nesse sentido que prudentia, termo latino que vem de providere, significa tanto prever quanto prover.

Assim, o homem prudente jamais comete os mesmos erros, nem repete as mesmas ações esperando um resultado diferente, porque sabe que os resultados dependem da escolha dos meios.

A prudência leva também em conta o imprevisto, porque sabe que não detém o controle de tudo, e que incidentes podem surgir, mas age sempre com cautela.

Ainda citando Sponville: a prudência é virtude da duração, do futuro incerto, do momento favorável (o  kairós dos gregos), virtude de paciência e de antecipação. Não se pode viver no instante. Não se pode chegar sempre ao prazer pelo caminho mais curto. O real impõe sua lei, seus obstáculos, seus desvios. A prudência é a arte de levar isso tudo em conta, é o desejo lúcido e razoável.

 

Muitas pessoas caem em desgraça por lhes faltar a prudência. Empresas vão à falência porque seus diretores não agiram com a devida prudência.

Diversas catástrofes ditas naturais ocorrem por falta da prudência aos homens.

Como geralmente se pensa mais nos fins que se deseja atingir, e pouco se leva em conta os meios para alcançá-los, muitos ficam pelo caminho.

E por que não dizer que o que realmente está ao nosso alcance é a escolha dos meios? Os fins podem ser estabelecidos, mas sempre dependerão dos meios.

Temos um exemplo disso na educação dos filhos.

Alguns pais, desejosos que seus filhos tenham ética, por vezes lançam mão de meios contrários e opostos à ética. Assim agindo, chegam a objetivos opostos aos que desejam, por falhar na escolha dos meios. É por isso que a boa vontade não basta.

Encerremos, com Sponville: A prudência só é uma virtude quando a serviço de um fim estimável (de outro modo, não seria mais que habilidade), assim como esse fim só é completamente virtuoso quando servido por meios adequados (de outro modo, não seria mais que bons sentimentos). Por isso, dizia Aristóteles, “não é possível ser homem de bem sem prudência, nem prudente sem virtude moral”. A prudência não basta à virtude (pois ela só delibera sobre os meios, quando a virtude também se prende à consideração dos fins), mas nenhuma virtude poderia prescindir da prudência. “A prudência”, dizia santo Agostinho, “é um amor que escolhe com sagacidade.”

 

Equipe Filosofia no Ar / TC, 29/06/2011



[1] Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, cap. 3 – A prudência. Ed. Martins Fontes, 2004.

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