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Crianças bruxas e transtornos psicológicos fictícios

Crianças bruxas e Transtornos psicológicos fictícios

 

Um vídeo da ABC News, disponível na internet,[1] mostra uma breve reportagem de Dan Harris sobre uma triste realidade que se passa nos dias atuais na República Democrática do Congo, África Central. O vídeo mostra crianças que são “diagnosticadas” bruxas, por pastores poderosos, e submetidas às mais horríveis torturas para expulsar o suposto demônio de que estariam possuídas.

É chocante ver mães e pais entregarem seus filhos pequenos nas mãos desses mercenários e assistirem, passivos, as crianças sofrendo as mais cruéis torturas, nas chamadas “cerimônias de libertação”, executadas por pastores que cobram caro para isso.

“Tais pastores dizem aos pais pobres que seus problemas econômicos, de saúde e emocionais são causados pelos membros mais fracos da família, e crianças não desejadas são frequentemente acusadas de bruxaria como pretexto para abandoná-las”, diz o repórter.

E nós perguntamos: por que aqueles pais acreditam que seu filho é um bruxo apenas porque pastores gananciosos e impiedosos lhes dizem?

O repórter que fez a reportagem que citamos, teve a oportunidade de perguntar a uma garotinha chamada Sarah, que, juntamente com sua irmã fora acusada de bruxaria: “Você se sente como se fosse uma bruxa?” E Sarah responde: “Não”. Quando a menina começa a chorar, sua irmãzinha também chora. Então o repórter diz ao pai das garotas, que aguardava o dito exorcismo: “Olhe para sua filha, ela está nitidamente sofrendo.” E o pai simplesmente responde: “Eu acredito que ela é uma bruxa.” E diz que acredita porque o pastor disse a ele, e porque não consegue achar outra explicação para seus problemas financeiros e de saúde.

A superstição, fruto da ignorância, alimenta preconceitos, e ninguém contesta que essas populações pobres são vítimas de charlatães disfarçados de religiosos.

Todavia, perguntamos se a exploração da credulidade humana ocorre somente junto a habitantes de países pobres.

Numa outra reportagem, publicada no site da Portugal Mundial[2], lemos a seguinte manchete:  “Pai do transtorno de déficit de atenção declara-se mentiroso.”

Reproduzimos aqui alguns trechos da matéria:

TDAH é o principal exemplo de uma doença fictícia.” Foi assim que Leon Eisenberg descreveu a doença que ele próprio etiquetou.”

Essas foram as palavras de Leon Eisenberg, o pai científico do TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), na sua última entrevista antes de falecer.

Nos Estados Unidos, uma em cada 10 crianças na faixa dos 10 anos toma medicação para TDAH diariamente... e a tendência é aumentar.

Poderíamos perguntar se o fato de um médico diagnosticar uma criança como portadora de TDAH teria algo a ver com o que está acontecendo hoje no Congo, quando um pastor mercenário acusa uma criança sadia de bruxaria.

Pode-se dizer que tal comparação é um absurdo. No entanto, parece que a forma de apreciação tanto num caso quanto no outro é só uma questão de ponto de vista, já que segundo psiquiatras imparciais, o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) não pode ser detectado cientificamente, então acredita-se sob palavra de profissionais, nem sempre bem intencionados, como ocorre com o diagnóstico de bruxaria, que é apenas uma opinião, com segundas intenções, diríamos. Cada criança declarada bruxa rende aos bolsos dos pastores uma alta soma em dinheiro, com as supostas expulsões dos maus Espíritos, ou demônios.

Segundo o documentário intitulado “O marketing da loucura”, disponível na internet[3], por trás de muitas doenças psicológicas há o interesse comercial das indústrias farmacêuticas e também, embora triste de constatar, de muitos médicos, psiquiatras e outros profissionais da área.

Impressionante notar que nesses casos as vítimas são sempre crianças, que são os seres mais frágeis.

A Comissão Nacional de Ética para a Medicina Humana (Commission nationale d’éthique pour la médicine humaine), com sede na Suíça, em sua Tomada de posição (Prise de position nº 18/2011), intitulada “Melhoria do humano por meio de substâncias farmacológicas”, publicada em Berne em outubro de 2011, diz o seguinte sobre a intervenção farmacológica aplicada à infância:

 

            Técnicas de melhoria aplicadas às crianças

 

“Uma atenção particular deve ser dedicada à aplicação das técnicas de melhoria às crianças. As intervenções farmacológicas tendem, com efeito, a se multiplicar sobre pessoas que não são ainda (plenamente) capazes de discernimento e sobre as quais os adultos – em regra geral os pais – estão habilitados a estatuir em matéria de saúde.

Essa tendência é igualmente alimentada pelo cuidado dos pais em oferecer e garantir a seu filho o que têm de ‘melhor’ para ele. O ‘melhor’ em espécie é quase sempre definido em função do que será a vida futura dessa criança no seio da sociedade.

Os pais habitualmente desejam que seu filho esteja bem armado para enfrentar a concorrência que caracteriza o acesso à formação e ao mercado de trabalho. Notadamente isso passa pela melhoria de suas capacidades cognitivas, mas também emocionais e sociais, como ainda pelo reforço de sua “resistência ao stress”.

Uma tal concorrência começa muito cedo quando da entrada na escola. Como sabe-se que os psicotrópicos agem igualmente sobre as crianças sadias, então os pais são incitados a utilizar esses produtos para melhorar a atenção e a concentração de seu filho, e aumentar assim suas chances de fazer face a essa concorrência.

Uma tal “otimização” das capacidades das crianças não toma tempo e passa despercebida, o que dispensa os pais de terem um olhar crítico sobre esse procedimento.

Segundo os dados do Presidente do conselho de bioética dos Estados Unidos (US President’s Council on Bioethics), a utilização de psicotrópicos como a Ritalina ou o Concerta não condiz com o número de diagnósticos estabelecidos e as indicações terapêuticas; aliás, é possível perceber uma tendência de utilização em meninos pequenos, em regiões urbanas.

Essa tendência é igualmente observável na Suíça, apesar das diferenças linguísticas e regionais. O consumo de Ritalina aumentou fortemente na Suíça entre 1996 e 2000, principalmente na faixa etária de 5 a 14 anos. A dosagem média progrediu cerca de 10% em quatro anos.

Apesar de numerosas intervenções parlamentares, infelizmente não existe relatório que exponha de maneira representativa e circunstanciada os dados mais recentes em matéria de prescrição e consumo de psicotrópicos na Suíça, entre as crianças. No entanto, um tal relatório seria rico em informações e permitiria esclarecer as razões pelas quais a utilização do metilfenidato, também conhecido como Ritalina, tem, por exemplo, aumentado na Suíça nos quinze últimos anos sendo que está disponível há 55 anos.

Do ponto de vista ético, é significativo que o fato de diagnosticar, por exemplo, um distúrbio ou déficit de atenção, um distúrbio relativo à oposição com provocação, ou um distúrbio ansioso, constitua um verdadeiro desafio para os profissionais em razão da dificuldade para estabelecer nas crianças uma distinção entre as condutas normais e as patológicas.

Faz-se igualmente importante pensar que o aumento do consumo de psicotrópicos contribui ou contribuiu para modificar as normas que definem quais comportamentos são qualificados de “normais” e socialmente aceitáveis em uma criança ou jovem, por oposição aos que são vistos como patológicos.

Uma vez que o estabelecimento de um diagnóstico é a seu turno influenciado por tais avaliações sociais e pela preocupação de que as crianças tenham um comportamento apropriado à escola maternal e à escola primária, uma progressão suplementar de prescrições é previsível. Esse exemplo mostra que a delimitação entre o domínio da melhoria [do desempenho] e o das necessidades terapêuticas depende de fatores culturais e históricos – e apela, conseguintemente, para uma reflexão ética.

Certamente também é possível lançar um olhar favorável sobre esta evolução, sublinhando que ela promove na criança qualidades manifestamente desejáveis, e que incentiva assim sua integração social. Alguns interpretam o cuidado de integração social como um dever moral. Todavia, a NEK-CNE[4] vê com reservas esse ponto. Com efeito, o uso de substâncias farmacológicas com fins de melhoria modifica o comportamento da criança sem nenhuma contribuição de sua parte. Isso constitui um atentado à liberdade e aos direitos da personalidade da criança.

As substâncias farmacológicas provocam certas modificações no comportamento da criança, mas não lhe permitem aprender a obter por si mesma tais mudanças. A criança se vê assim privada de uma experiência de aprendizagem importante para uma ação autônoma e responsável:  a que lhe permite influenciar sua conduta por suas próprias decisões – e não (unicamente) por meios exteriores – e de assumir a responsabilidade pelos atos.

É por isso que a utilização de técnicas de melhoria restringem de maneira significativa a liberdade da criança e constitui um entrave ao desenvolvimento de sua personalidade.

O consumo de substâncias farmacológicas pode igualmente ter outros efeitos sobre o caráter, pois transmite à criança a mensagem de que a utilização de tais produtos é necessária para o reconhecimento social. À medida que os medicamentos modificam os traços de caráter da criança ou que esta se torna dependente dos psicotrópicos, o desenvolvimento de sua personalidade e a consciência que ela tem de seu próprio valor são afetados.

Isso poderia, aliás, favorecer a formação de modelos de comportamento que criam a dependência. A pressão de conformidade a que os pais e os estabelecimentos escolares submetem as crianças impõe um padrão de normalidade que enfraquece a tolerância a respeito do que é próprio da infância.

A diversidade dos temperamentos e dos modos de vida poderiam também se reduzir, o que finalmente teria por efeito ameaçar o direito da criança de ter um modo de vida aberto.

A NEK-CNE pleiteia uma adaptação das condições de vida aos interesses e às necessidades das crianças. Com efeito, as qualidades da infância, que não se baseiam sobre aspectos de concorrência social e de desempenho, mas consistem em brincadeiras, amizade e no tempo livre, sem obrigação de sucesso, poderiam, em caso contrário ser desconsideradas – e com elas a própria infância.

 

Algumas recomendações da NEK-CNE

 

* A política da saúde deveria abster-se de toda confusão e de toda mescla entre o domínio da melhoria do desempenho e o da prevenção, cuja finalidade é de impedir as doenças.

 

* Principalmente com relação às crianças, os métodos farmacológicos de melhoria das performances podem constituir um entrave à liberdade, aos direitos da personalidade e ao desenvolvimento pessoal. Uma responsabilidade particular incumbe aqui aos pais, aos estabelecimentos de ensino e aos demais tutores, tanto a respeito de cada criança quanto aos valores e normas futuras de nossa sociedade.

 

* É preciso examinar a prática atual em matéria de prescrição de psicotrópicos às crianças, identificar as causas do aumento do consumo e proteger as crianças de uma utilização excessiva.” (Do site: http://www.bag.admin.ch/nek-cne/04236/index.html?lang=fr traduzido do francês pela equipe Filosofia no ar.)

 

Os pais que realmente se interessam pela felicidade de seus filhos devem estudar essas questões com muita atenção e cuidado. Ao ter seu filho diagnosticado como portador de algum transtorno, perguntar-se: Meu filho está verdadeiramente com tal ou qual dificuldade? Se realmente está, qual a verdadeira causa do mal? O que meu filho está querendo me dizer e que não estou ouvindo?

Há que se perguntar se a causa do chamado “Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade”, não é devida às atividades rotineiras, como desenhos animados violentos, ou jogos eletrônicos, com que a criança se ocupa por longas horas.

Perguntar-se sobre a qualidade do conteúdo dado na escola em que seu filho estuda, ou o tratamento que ele recebe em salas de aula abarrotadas onde o que geralmente conta é o número de mensalidades. Dopar crianças não seria um meio prático de obter sem dificuldade a obediência passiva dos alunos, ou “clientes indisciplinados”? Num mundo como o nosso, em que o egoísmo impera, há que se ter muita atenção.

Diz-se que em países pobres como o Congo, a Nigéria e outros, os pais desejam livrar-se de filhos que representam um peso na economia familiar, e os entregam a pastores mercenários a fim de que recebam destes um diagnóstico de bruxaria, e sejam jogados na rua.

No entanto, não se poderia pensar que a Ritalina, ou “pílula da obediência”, como é chamada, seja um meio fácil de calar os pequeninos e submetê-los a sistemas, tanto escolares como econômicos, que nem sempre prezam pela justiça e a fraternidade?

Vale a pena refletir seriamente sobre o que estamos fazendo com as nossas crianças, esses seres frágeis que chegam ao mundo como aceno da esperança.

 

 

Filosofia no ar / tc 08/02/2014

           

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