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Servidão voluntária

Servidão voluntária

 

Não há sujeição tão perfeita quanto aquela que guarda a aparência da liberdade; cativa-se assim a própria vontade. (Rousseau)

 

Platão, sábio filósofo que viveu cerca de 400 anos antes da era cristã, escreveu sobre vários temas de grande importância para o conhecimento humano. Dentre esses escritos, geralmente em forma de diálogos, escreveu Górgias[1], que trata da justiça, da retórica e de outros temas não menos interessantes.

Como se sabe, Platão foi amigo e discípulo de Sócrates, e embora Sócrates não tenha escrito nenhum livro, figura como protagonista nos diálogos de Platão.

Em Górgias, um longo diálogo se estabelece entre Sócrates e alguns sofistas, dentre os quais Cálicles, que era um dos mais ardorosos defensores da retórica como meio de obter honras e riquezas à custa dos cidadãos atenienses.

É contra essa ideia dos sofistas que Sócrates argumenta ao longo dos diálogos, em Górgias e também em outros diálogos, opondo a ideia de que o político, o orador, deve ter sempre por objetivo o bem de todos, tendo em vista uma justiça perfeita.

Vale dizer que para os sofistas a retórica havia se tornado de caráter frívolo e estava totalmente separada da moral. Indiferente à verdade e à justiça, o orador se propunha a defender toda causa, boa ou má. Lisonjeando as paixões da multidão e aproveitando de sua ignorância, ele deveria tratar de dominá-la para dela obter o que queria, sem inquietar-se com as leis divinas e humanas. Tal era a doutrina dos sofistas, que eles sabiam mascarar sob falsas aparências a fim de fazer aceito o que é odioso.

Sócrates perseguia sem tréguas esse falso e pernicioso ensinamento que era dado à juventude de seu tempo. Para os sofistas, a política consistia unicamente na arte de  adular o povo, incensar suas paixões para tirar delas proveito.

Se um déspota pode manter alguns escravos a correntes, um sofista habilidoso pode dominar muito mais fortemente pela cadeia de suas próprias ideias, pois é sobre a ignorância que se assentam as bases dos mais sólidos impérios.

Para Platão, ao contrário, o objetivo da verdadeira eloquência era o triunfo da verdade e da justiça. O orador, como o político, deveriam dedicar-se com o objetivo de tornar os homens melhores, virtuosos, cumpridores de seus deveres, e não para os agradar incensando seus vícios. Para ser bom orador era preciso ser justo e versado na ciência das coisas justas, enfim, era preciso ser filósofo, ou seja: um amante da sabedoria.

Bem, não é preciso dizer que, ironicamente, Sócrates foi condenado à morte sob acusação de corromper a juventude. Utilizando-se da oratória para incensar as paixões do povo, os sofistas conseguiram calar o sábio filósofo. Também não é preciso dizer quem perdeu com isso.

Pode-se dizer que o fundo da doutrina dos sofistas é o prazer dos sentidos dado como objetivo às ações humanas, o egoísmo, a força erigida em lei, o desprezo de toda justiça. Assim, com discursos habilmente elaborados, os sofistas levavam o povo facilmente ao convencimento, para o que não descuidavam de adular seus ouvintes com palavras agradáveis aos sentidos.

Enquanto os sofistas defendiam a ideia de que o poder deve ser conferido ao mais forte, mesmo em detrimento da justiça, Sócrates afirmava: “É melhor sofrer injustiça do que a cometer”

Depois que a doutrina dos sofistas sobrepujou a dos filósofos sábios, surgiram muitos reis tiranos. A história registrou uma infinidade de governantes que se utilizavam do discurso para fazer aceitas as ideias mais ignóbeis, insensatas e injustas. O poder do mais forte infelizmente ainda tem seus partidários em nosso século.

No século XVI, o filósofo francês Étienne de La Boétie, amigo íntimo de Michel de Montaigne, escreveu um Discurso sobre a servidão voluntária. A princípio, “servidão voluntária” pode parecer uma ideia contraditória, mas quando se consegue fazer com que a servidão tenha uma aparência de liberdade e entre em jogo o interesse pessoal daquele que se submete, então, cativa-se assim a própria vontade, como diz Rousseau.

Reproduzimos aqui alguns trechos do discurso de La Boétie[2], para que possamos refletir sobre as ideias desse autor:

"Esta é a inclinação natural do povo ignorante, cujo número é cada vez maior nas cidades: desconfia daquele que o ama e acredita naquele que o engana. Não penseis que um pássaro caia mais facilmente no laço, ou um peixe, por gulodice, morda mais cedo o anzol, do que todos esses povos que se deixam atrair prontamente pela servidão, graças à menor doçura que os façam provar. É realmente assombroso ver como se deixam ir tão rapidamente ao menor afago que lhes seja dispensado."

“O teatro, os jogos, as futilidades, os espetáculos, os gladiadores, os animais ferozes, as medalhas, os quadros e outras drogas semelhantes eram para os povos antigos a isca da servidão, o preço de sua liberdade, os instrumentos da tirania. Os tiranos antigos empregavam esses meios, essas práticas, esses atrativos para entorpecer e manter seus súditos sob o jugo. Assim os povos, embrutecidos, achando belos esses passatempos, entretidos por um prazer vão que passava rapidamente diante de seus olhos, acostumavam-se a servir tão ingenuamente, e até pior, quanto as criancinhas que aprendem a ler vendo as imagens brilhantes dos livros coloridos.

Haverá condição mais miserável do que viver assim, sem ter nada de seu, sujeitando a outrem a liberdade, o corpo, a vida?

Os tiranos de Roma recorreram também a outro meio: dar com frequência festas às decúrias públicas[3], iludindo como podiam essa canalha[4] que se entrega ao prazer da boca, mais do que a qualquer outra coisa.

O romano mais sensato e esperto não deixaria sua tigela de sopa para recuperar a liberdade da República de Platão. Os tiranos distribuíam em profusão um quarto de trigo, um sesteiro[5] de vinho e um sestércio[6], e então dava dó ouvir gritar: “Viva o rei!” Os imbecis não percebiam que recuperavam apenas parte do que era seu, e que mesmo a parte que recuperavam o tirano não poderia dar-lhes se, antes, não a tivesse tirado deles mesmos. Aquele que hoje apanhava o sestércio e se empanturrava no banquete público bendizendo a generosidade de Tibério e Nero no dia seguinte, obrigado a abandonar seus bens à cobiça, seus filhos à luxúria, seu próprio sangue à crueldade desses imperadores magníficos, não dizia palavra, mudo como uma pedra e imóvel como um tronco. O povo ignorante sempre foi assim: entrega-se com paixão ao prazer que não pode receber honestamente e é insensível ao erro e à dor que não pode suportar sem se aviltar.(...)

"Os imperadores romanos também não se esqueceram de apropriar-se comumente do título de tribuno do povo, porque esse ofício era considerado santo e sagrado. Estabelecido para a defesa e proteção do povo, gozava de alta aceitação no Estado. Asseguravam-se por esse meio de que o povo confiaria mais neles, como se bastasse ouvir esse nome, sem precisar sentir os efeitos. Hoje não são melhores os que, antes de cometer seus crimes mais graves, sempre os fazem preceder por alguns belos discursos sobre o bem público e o interesse geral.

Os reis da Assíria, e depois deles os reis medas, tinham o costume de aparecer em público o mais raramente possível, para fazer o povo supor que havia neles algo sobre-humano e deixar sua gente alimentando ideias fantasiosas, no qual caem frequentemente os homens de imaginação fértil em relação às coisas que não podem ver com os próprios olhos. Assim, muitas nações que estiveram por longo tempo sob o império desses reis misteriosos se acostumaram a servi-los, e os serviram com tanto mais boa vontade quanto ignoravam quem era o seu senhor, ou mesmo se tinham um, de tal sorte que viviam com medo de um soberano que ninguém nunca tinha visto.

Os primeiros reis do Egito nunca se mostravam em público sem levar ora um gato, ora um ramo, ora fogo sobre a cabeça, e desse modo se mascaravam e se fingiam de mágicos. Com essas formas estranhas, inspiravam certa reverência e admiração a seus súditos, que só deveriam rir e zombar deles, se não fossem tão estúpidos e submissos.

É realmente lamentável ouvir falar de quantas coisas os tiranos do passado se valeram para consolidar sua tirania, e de quantos meios mesquinhos se serviram, encontrando sempre o povo tão bem-disposto em ralação a eles que caía em sua rede mesmo quando mal soubessem armá-la. Eles sempre tiveram facilidade em enganar o povo e nunca o sujeitaram melhor do que quando mais zombavam dele.

É certo, por conseguinte, que com a liberdade se perde imediatamente qualquer valor. As pessoas submissas não têm brio nem entusiasmo no combate. Caminham em direção ao perigo como que arrastadas e sem ânimo, como se cumprissem uma obrigação. Não sentem ferver em seu coração o ardor da liberdade, que faz desprezar o perigo e dá a vontade de ganhar com uma bela morte a honra e a glória entre seus companheiros.

Os homens livres, ao contrário, disputam a preferência em lutar pelo bem comum, porque associam a ele o seu interesse particular: todos esperam ter sua parte no mal da derrota, ou no bem da vitória. Mas os homens submissos, desprovidos de coragem guerreira, perdem, e perdem também a vivacidade em todas as outras coisas; têm o coração tão fraco e mole que não são capazes de qualquer grande ação. Os tiranos sabem muito bem disso. Por isso, fazem o possível para torná-los ainda mais fracos e covardes.

No livro VII de A República, Platão resume seu pensamento político-filosófico no chamado Mito da caverna[7]. Trata-se de uma morada subterrânea onde os homens vivem acorrentados pelos pés e pescoço, de costas para a entrada, e que veem apenas suas próprias sombras e as sombras dos objetos que são projetadas por detrás deles e se refletem numa parede à sua frente.

Essa alegoria expõe, em termos figurados, a capacidade dos homens para acessar o conhecimento da realidade, assim como a não menos difícil transmissão desse conhecimento.

Vemos em outros diálogos, especialmente em Fédon, que Sócrates considera o mundo sensível como a prisão da alma, enquanto o mundo inteligível, ao qual pode chegar a alma pela filosofia, é a única realidade autêntica.

Para Platão, os homens que projetam as imagens dos objetos, estão também na caverna, visualizando apenas o mundo físico, perceptível aos sentidos.

Aquele que sai da caverna e volta para libertar dos grilhões os homens que ainda estão acorrentados, seriam os filósofos, ou seja, é uma representação da realidade do que pode viver uma pessoa que tenha feito seu caminho de reflexão, de elevação de si mesma, isto é, seu próprio percurso de iniciação, que não deve reservar para si somente, mas deve saber oferecer aos outros, até o dever de assumir responsabilidades públicas no cumprimento de um dever junto aos seus semelhantes.

No mito estão bem representados os sofistas, que habilmente manipulam a opinião pública, e os filósofos, que representam aqueles que saem da caverna e voltam para libertar os que ainda estão imobilizados pelas correntes.

Enquanto o filósofo é justo e busca esclarecer seu próximo, com vistas a livrá-lo da situação em que se encontra, expondo-lhe a verdade sobre todas as coisas, o sofista se aproveita da condição dos “prisioneiros” para tirar disso vantagens pessoais, com fins egoísticos. Em vez de livrar os homens das correntes, procura dar-lhe saúde, diversão, alimento, mas deixa-o nas correntes.

É assim que exploram a ignorância, os vícios, as más paixões, adulando, incensando, e com habilidade manipulando as opiniões fazendo crer numa liberdade, que é apenas aparente. Como bem se percebe, os efeitos da vitória da doutrina dos sofistas gregos se refletem na atualidade. Podemos dizer que há sofistas no campo da política, mas os há também nas empresas, nas academias, nas tribunas religiosas, e onde quer que haja um interesse de dominação, ainda que muito bem disfarçado.

Platão propunha um objetivo bem mais elevado ao orador, que é o bem, o melhoramento dos homens, sem os lisonjear e agradar, pois “é aos escravos e não aos homens livres que se dá um prêmio para os recompensar por se terem comportado bem”, como disse Espinosa; é esclarecê-los para os reformar e não para os enganar, e proíbe de aproveitar-se da opinião comum quando se sabe que é falsa, de explorar os preconceitos para fazê-los servir ao triunfo da causa: esse objetivo, e os motivos superiores em que o orador proclame, com firmeza, altas verdades, pouco agradável de ouvir, mas que são formalmente expressas.

Infelizmente pouco se houve falar do Górgias, monumento único. A ideia moral que ele contém é muito pouco compreendida pelos sucessores de Platão, e resta infecunda.

Bem, vamos encerrar estas breves reflexões sobre a servidão voluntária, com mais um parágrafo do livro de La Boétie:

Aprendamos, pois, a fazer o bem. Levantemos, para nossa honra ou por amor à virtude, os olhos ao céu para o Deus todo-poderoso, testemunha fiel de nossos atos e juiz justo de nossas faltas. De minha parte penso, e creio não estar enganado, que ele reserva nos abismos um castigo especial para os tiranos e seus cúmplices, pois nada é mais contrário a um Deus bom e clemente do que a tirania.

 

 

Equipe Filosofia no ar / tc 24/01/2014



[1] Gorgias ou de la Rhétorique, trad. de Grou, précédé d’un étude philosophique sur le Gorgias, e suivi d’un essai sur la sophistique et les sophistes. Paris, 1865.

[2] Discurso da Servidão Voluntária, trad. de Casemiro Linarth, 2ª edição (bilíngue), Editora Martin Claret. São Paulo. 2013.

[3] Decúrias públicas eram festas oferecidas aos homens do povo, agrupados de dez em dez e alimentados à custa do erário. (N. do T.)

[4] No francês: canaille, canalha, gentalha, ralé, populacho, malandro.

[5] O sesteiro era a unidade básica de medida de volume para líquidos do Império Romano. Equivalia, aproximadamente, a meio litro. (N. do T.)

[6] O sestércio era uma moeda da Roma antiga, de menor valor. Durante a república era uma pequena moeda de prata. Durante o Império ternou-se uma moeda grande de bronze. (N. do T.)

[7] Mito: Expressão alegórica de uma ideia abstrata; exposição de uma teoria, de uma doutrina sob uma forma representada por imagens.(Centre National de Ressources Textuelles et Lexicales: http://www.cnrtl.fr/definition/mythe)

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