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O bem supremo

O supremo bem

 

Enquanto és jovem, faz da sabedoria uma provisão para a velhice, pois a sabedoria é o menos frágil de todos os bens. Bias, de Priene[1]

 

Conta-se que no século VI a.C., quando a cidade de Priene, na Jônia, estava prestes a ser invadida pelos soldados persas, a população entrou em desespero, e o caos se estabeleceu. As pessoas preparavam-se para a fuga, numa correria desenfreada para salvar seus pertences mais valiosos.

Em meio à confusão, apenas um homem mantinha-se calmo. Era o filósofo Bias, considerado um dos sete sábios da Grécia.

Inquietas com sua despreocupação ante a ameaça de invasão da cidade, as pessoas lhe perguntaram se ele não iria preparar a bagagem com seus bens mais valiosos, ao que o filósofo respondeu: “O que eu tenho, trago comigo.”

O que tinha de tão valioso aquele filósofo? Certamente não eram bens materiais, mas a sabedoria. Seu patrimônio era legítimo, seu tesouro estava nele, e não fora dele: a justiça, o amor e a ciência. Ele estava seguro de que esses tesouros ninguém lhe poderia roubar, mesmo que matassem seu corpo.

Hoje, em que grande parte das pessoas busca a felicidade em coisas efêmeras, vale a pena lembrar alguns ensinamentos deixados por homens sábios que passaram pela Terra.

Nos escritos de Espinosa, filósofo holandês que viveu no século XVII, e que está entre os mais respeitados pensadores da atualidade, encontramos valiosas lições que nos fazem refletir profundamente sobre o que seria o Bem Supremo.

    Em seu Tratado da reforma do intelecto[2], Espinosa diz:

“Tendo a experiência me ensinado que todos os eventos ordinários da vida comum são coisas vãs e fúteis, e que todos os objetos de nossos temores não têm nada em si de bom nem de mau, a não ser na medida em que nos toca a alma, tomei, finalmente, a resolução de pesquisar se existe um bem verdadeiro e capaz de comunicar-se aos homens, um bem que pudesse sozinho preencher completamente a alma, após ter ela rejeitado todos os outros bens, em uma palavra, um bem que dê à alma, quando ela o encontra e o possui, a eterna e suprema felicidade.(...)

“Meditava então comigo mesmo sobre esta questão: é possível que eu venha a dirigir minha vida conforme uma nova regra, ou pelo menos assegurar-me que existe uma, sem todavia mudar a ordem atual de minha conduta, nem afastar-me dos hábitos comuns, o que frequentemente tentei, mas sempre em vão? Com efeito, os objetos que se apresentam com mais frequência na vida, e em que os homens, a julgar por suas obras, colocam a soberana felicidade, podem reduzir-se a três: as riquezas, a reputação[3] e a volúpia[4].

“Ora, a alma está sempre tão fortemente ocupada com esses três objetos que mal é capaz de pensar em outro bem. A volúpia, principalmente, acorrenta a alma com tanta força que a alma a ela se entrega como a um bem verdadeiro, e é o que mais contribui para afastá-la de qualquer outro pensamento; mas, após o gozo vem a tristeza, e se a alma não fica completamente por ela possuída, fica pelo menos perturbada e embotada.

“As honras e as riquezas não ocupam menos uma alma, sobretudo quando se busca todas essas coisas por elas mesmas, imaginando-se que são o supremo bem. “A reputação ocupa a alma com mais força ainda; pois esta a considera sempre como sendo por si mesma um bem, e dela faz um objetivo supremo, para o qual tendem todos os seus desejos. Acrescente-se que o arrependimento não acompanha a reputação e as riquezas, como faz com a volúpia; muito pelo contrário, quanto mais se possui essas vantagens, quanto mais se prova a alegria, mais, por conseguinte, se é estimulado a aumentá-las. Se nossas esperanças a esse respeito vêm a ser frustradas, eis-nos cumulados de tristeza. Enfim, a busca da reputação é para nós um poderoso entrave, porque para atingi-la é preciso, necessariamente, conduzir-se de modo a agradar os homens: evitar o que o vulgo evita e correr atrás do que ele busca.” [5]

Espinosa contentou-se com ganhar sua subsistência como polidor de lentes. Sabe-se que poderia ter escolhido a vida de um comerciante suficientemente abastado, ou de um respeitável rabino, ou ainda de professor universitário.

O filósofo viveu as angústias da condição humana. Foi expulso e amaldiçoado pela comunidade judaica da qual fazia parte, mas não desistiu de investigar acerca do Bem Supremo, do sentido último das coisas, do sentido de sua vida.

Lívio Teixeira, na introdução à tradução feita por ele, do Tratado da Reforma da inteligência, de Espinosa, diz o seguinte:

“Já está dentro das linhas da filosofia de ESPINOSA o primeiro pressentimento de solução, que aqui encontramos. Nossa felicidade ou nossa miséria dependem unicamente disto: a que espécie de coisas dedicamos nosso amor. Há na ética espinosana um elemento afetivo, quase religioso. O conhecimento é necessário, mas não suficiente para nossa salvação. Em vários lugares de sua obra, ESPINOSA cita o célebre verso de Ovídio, aliás tão conforme à experiência cristã: Video meliora proboque, deteriora sequor [Eu vejo a melhor solução e a aprovo, mas escolho a pior].

Contudo, se disséssemos que para ESPINOSA o conhecimento do bem, só por si, não nos dá forças para praticá-lo, estaríamos traindo de certo modo seu pensamento, na medida em que com isso supuséssemos a necessidade de alguma intervenção externa em favor do homem, a fim de dar-lhe forças. O que há é uma relação simples entre o que conhecemos e o que amamos. Amamos aquilo que conhecemos. Daí a necessidade de elevar-nos ao conhecimento do que é permanente, imutável, eterno. O conhecimento de Deus trará o amor de Deus. E o amor das coisas eternas e infinitas nutre a alma de puro gozo, isento de qualquer tristeza...”[6]

 

Encerramos estas poucas reflexões sobre a felicidade suprema, com um pensamento de Rousseau:

Queres viver feliz e com sabedoria? Liga teu coração apenas ao que não perece; que tua condição limite teus desejos; que teus deveres andem à frente de teus pendores; estende a lei da necessidade também às questões morais; aprende a perder o que te pode ser retirado; a tudo deixar quando a virtude o ordena, a te colocar acima dos acontecimentos, e a desprender deles o teu coração para que eles não o dilacerem. Aprende a ser corajoso na adversidade, para jamais seres miserável. Aprende a ser firme em teus deveres, para nunca seres criminoso. Então serás feliz, apesar da sorte, e sábio, apesar das paixões. Assim encontrarás, mesmo na posse dos bens frágeis, um prazer que ninguém poderá perturbar; tu os possuirás sem que eles te possuam, e sentirás que o homem, a quem tudo escapa, goza apenas daquilo que ele sabe perder.[7]

 

Equipe Filosofia no ar / tc 06/11/2013



[1] Diogène Laërce, La vie des phylosophes, página 74. Paris, 1668.

[2] Do latim, intellego (inter e lego), discernir, esclarecer, aperceber-se, observar, dar-se conta, reconhecer. (Dictionnaire Gaffiot latin-français – 1934)

[3] Opinião que o público tem sobre uma pessoa. (Dictionnaire de la langue française 'Littré’)

[4] Do latim, Volupia: deusa do prazer. Voluptas: o prazer, a volúpia, alegria, satisfação, contentamento, prazer dos sentidos. (Dictionnaire Gaffiot latin-français – 1934)

[5] Œuvres de Spinoza, traduites par Émile Saisset, tome II. Traité de la réforme de l’entendement. Paris, 1872.

[6] Tratado da Reforma da Inteligência, Baruch de Espinosa. Tradução, introdução e notas de Lívio Teixeira. Ed. Martins Fontes. São Paulo, 2004.

[7] Esprit, maximes et principes de M. Jean-Jacques Rousseau, de Genève, pp. 36 e 37. Neuchatel, 1764.

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