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Provas da existência de Deus - Fénelon

TRATADO DA EXISTÊNCIA E DOS ATRIBUTOS DE DEUS[1]

 Por François Fénelon, escrito em 1712

 Provas da existência de Deus, tiradas da consideração das principais maravilhas da natureza.

  

(...) Após essas comparações, sobre as quais peço ao leitor para simplesmente consultar-se a si próprio, mesmo sem raciocinar, creio que é momento de entrar no detalhe da natureza. Não pretendo penetrá-la toda inteira; quem o poderia? Também não pretendo entrar em nenhuma discussão de Física; essas discussões suporiam certos conhecimentos aprofundados que muitas pessoas de espírito jamais adquiriram; quero lhes propor apenas um simples golpe de vista sobre a face da natureza; não quero lhes falar senão do que todo mundo sabe, e que precisa apenas de um pouco de atenção tranquila e séria.

Detenhamo-nos primeiramente no grande objeto que atrai nossos primeiros olhares, isto é, a estrutura geral do Universo. Lancemos um olhar sobre esta terra que nos suporta; observemos no céu essa abóbada imensa que nos cobre; esses abismos de ar e de água que nos rodeiam, e os astros que nos iluminam. Um homem que vive sem reflexão pensa apenas nos espaços que estão junto de si ou que têm alguma relação com suas necessidades; ele considera a terra inteira apenas como o chão do seu quarto, e vê o sol que o ilumina durante o dia da mesma maneira que vê a vela que o ilumina durante a noite; seus pensamentos se limitam ao lugar estreito que ele habita. Ao contrário, o homem habituado a refletir estende seu olhar para mais longe, e considera com curiosidade os abismos quase infinitos que o rodeiam por todos os lados. Um vasto reino lhe parece então um pequeno canto da Terra; a própria Terra não é, a seus olhos, senão um ponto da massa do Universo; admira-se de estar aí localizado sem saber como nela veio parar.

Quem é que suspendeu esse globo da terra que é imóvel? Quem é que nela pôs os fundamentos? Nada, ao que lhe parece, é mais vil que ela; os mais infelizes lhe calcam sob os pés. No entanto, é para possui-la que se investem todos os grandes tesouros. Se a terra fosse mais dura, o homem não poderia abrir-lhe o seio para cultivá-la; se ela fosse menos dura, não poderia suportá-lo; ele afundaria em toda parte, como afunda na areia ou no lamaçal. É do seio inesgotável da terra que sai tudo o que há de mais precioso. Essa massa informe, vil e grosseira, toma as formas mais diversas e se transforma, passo a passo, em todos os bens que lhe solicitamos; essa lama tão feia transforma-se em mil objetos belos que encantam os olhos; em apenas um ano ela se torna galhos, botões, folhas, flores, frutos e sementes, para renovar suas liberalidades em favor dos homens. Nada a esgota. Quanto mais dilaceramos suas entranhas, mas liberal ela é. Após tantos séculos, durante os quais tudo tem dela saído, ainda não está gasta; não se torna velha; suas entranhas ainda estão plenas dos mesmos tesouros.

Mil gerações passaram por seu seio: tudo envelhece, exceto ela, que rejuvenesce a cada ano, na primavera. Ela jamais falta aos homens; mas, insensatos, os homens faltam a si mesmos negligenciando o seu cultivo (...).

Admirai as plantas que nascem da terra; elas fornecem alimentos aos sãos e remédios aos doentes. Suas espécies e suas virtudes são inumeráveis: elas enfeitam a terra; dão verdor, flores odoríferas e frutos deliciosos. Vedes essas vastas florestas que parecem tão antigas quanto o mundo? As árvores se afundam na terra por meio de suas raízes, como se elevam para o céu por meio de seus galhos; suas raízes as sustentam contra os ventos, e vão buscar, como por pequenos tubos subterrâneos, todos os sucos destinados à nutrição de seu caule; o próprio caule se reveste de uma casca dura, que coloca a madeira tenra ao abrigo das injúrias do ar; seus galhos distribuem, por diversos canais a seiva que as raízes reuniram no tronco. No verão esses ramos nos protegem contra os raios do sol, com sua sombra; no inverno eles nutrem a chama que conserva em nós o calor natural. Sua madeira não é útil somente para o fogo; é uma matéria dócil, ainda que sólida e durável, à qual, sem dificuldade, a mão do homem dá todas as formas que desejar, para as grandes obras de arquitetura e de navegação. Além disso, pendendo seus ramos para a terra, as árvores frutíferas parecem oferecer seus frutos ao homem.

As árvores e as plantas, deixando cair seus frutos ou seus grãos, preparam em torno delas mesmas uma numerosa prosperidade. A mais frágil planta, o menor legume, contêm em pequeno volume, num grão, o germe de tudo o que se desdobra nas mais altas plantas e nas maiores árvores. A terra, que jamais muda, faz todas essas mudanças em seu seio.

Observemos agora o que chamamos de água: é um corpo líquido, claro e transparente. Por um lado, ela corre, escapa, foge; por outro, toma todas as formas do corpo que a contêm, não tendo nenhuma para si mesma. Se a água fosse um pouco mais rarefeita, se tornaria uma espécie de ar; toda a face da terra seria seca e estéril; haveria apenas animais voadores; nenhuma espécie de animal poderia nadar, nenhum peixe poderia viver; não haveria nenhum comércio pela navegação. Que mão habilidosa soube condensar a água, sutilizar o ar, e distinguir tão bem essas duas espécies de corpos fluidos?

Se a água fosse um pouco mais rarefeita, não poderia sustentar esses prodigiosos edifícios que denominamos navio; os corpos menos pesados afundariam primeiro na água. Quem é que tomou o cuidado de escolher uma tão justa configuração de partes, e um grau tão preciso de movimento, para tornar a água tão fluida, tão insinuante, tão própria a escapar, tão incapaz de toda consistência, e no entanto tão forte para levar, e tão impetuosa para arrastar as mais pesadas massas? Ela é dócil; o homem a conduz, como um cavaleiro conduz um cavalo pelas pontas das rédeas; ele a distribui como lhe convém; eleva-a sobre as montanhas escarpadas, e se serve de seu próprio peso para fazê-la cair, e subir tanto quanto desceu. Mas o homem, que conduz as águas com tanto império é, a seu turno, conduzido por elas. A água é uma das maiores forças motrizes que o homem sabe empregar para suprir ao que lhe falta nas artes mais necessárias, por causa da sua pequenez e pela fragilidade de seu corpo.

Todavia, essas águas que, não obstante sua fluidez, são massas tão pesadas, não deixam de se elevar acima de nossas cabeças e ficar lá por longo tempo suspensas.  Vede essas nuvens que voam como sobre as asas dos ventos? Se caíssem de repente em grossas colunas d’água, rápidas como torrentes, submergiriam e destruiriam tudo o que estivesse em seu caminho, e o restante das terras ficariam áridas. Que mão as têm nesses reservatórios suspensos, e não lhes permite cair senão gota a gota, como se fossem destiladas por um regador? Donde vem que em certos países quentes, onde quase nunca chove, o orvalho é tão abundante que supre a falta de chuva, e em outros países, tais como nas margens do Nilo e do Ganges, a inundação regular dos rios em certas estações diminui a necessidade dos povos de irrigar a terra? Pode-se imaginar medidas melhor tomadas para tornar todas as regiões férteis?

Assim, a água dessedenta não somente os homens, mas também os campos áridos; e aquele que nos deu esse corpo fluido o distribuiu com cuidado sobre a terra como os canais de um jardim. (...)



[1] Texto extraído das Œuvres Choisies de Fénelon. Traité de l’Existence et des Attributs de Dieu, Première partie, ch. I. Traduzido do francês pela Equipe Filosofia no ar.

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