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PERGUNTAS IRRITANTES

 

Alguém já lhe fez uma pergunta sobre alguma coisa que você achava que sabia, mas na verdade não sabia?

Pois é! Sócrates, um dos mais sábios filósofos de todos os tempos, tinha o costume de passear pelas ruas de Atenas, cidade da Grécia antiga, e surpreender as pessoas com perguntas que muitas vezes as deixavam irritadas.

Isso aconteceu um dia com um general, amigo de Sócrates, que havia lutado muitas vezes e conhecia bem a arte da guerra.

O filósofo lhe perguntou: “meu amigo, você sabe o que é a coragem?”

O militar, que acreditava saber, respondeu sem demora: “coragem é não ter medo de nada”.

Sócrates então fez outra pergunta: “e aquele que tem medo, um medo terrível, mas que decide superar o pânico e vai à luta, não será mais corajoso do que aquele que não sente medo? – É verdade, disse o militar. Então ter coragem é jamais recuar diante da luta.

“E um oficial, falou Sócrates, que em meio a uma grande batalha percebe que se continuar atacando perderá todos os seus homens, e decide recuar, fazer novas estratégias e preparar-se melhor, pode ser considerado covarde?” – É claro que não, falou o general. Mas o certo é que ficou irritado. Afinal, suas certezas foram abaladas justamente no assunto em que ele acreditava saber mais...

Em outro momento Sócrates propôs a um professor, que se julgava grande conhecedor das coisas e apto a responder qualquer pergunta, que lhe dissesse o que é beleza.

“Ora essa!”, disse o pretencioso professor. “Você só pode estar zombando de mim. Essa pergunta é fácil demais e a resposta é bem simples: um vaso de ouro, isso é a beleza”.

“Eu lhe pedi para que me dissesse o que é beleza e não para dar um exemplo de coisa bela”, disse o filósofo.

O professor pensou por um bom tempo e respondeu: “beleza é um cavalo de corrida ou uma jovem moça.”

Então Sócrates falou: “quero que me dê uma definição de beleza; que me diga o que é “ser belo”. O que têm em comum o vaso, o cavalo e moça, para que você os julgue belos?”

Pode-se perceber que o que de fato interessava a Sócrates era conhecer a ideia de beleza, e não exemplos de coisas belas, o que é diferente. É claro que o professor ficou irritado, pois acabara de descobrir que suas “verdades”, não eram sólidas como ele pensava.

Hoje em dia existem professores de Filosofia, com suas “verdades absolutas”, geralmente inquestionáveis, mas infelizmente, filósofos como Sócrates devem ser raríssimos.

Platão, o mais conhecido discípulo de Sócrates, escreveu notáveis diálogos que indicam o que é filosofar; mostram que o verdadeiro filósofo tem mais amor pela verdade do que pelas próprias opiniões.

É bem conhecida a passagem em que Querofonte, amigo de Sócrates, vai a Delfos e interroga a Sacerdotisa sobre se havia alguém mais sábio do que Sócrates, e que ela responde não haver ninguém mais sábio.

Sócrates expõe, diante da assembleia que o julgava, o motivo pelo qual estava sendo acusado, e narra algumas passagens de suas experiências na busca pela verdade.

Do livro Apologia[1] de Sócrates, reproduzimos aqui um pequeno trecho da defesa do filósofo:

“Sei bem que não há em mim nenhuma sabedoria, nem pequena, nem grande; o que quer dizer, então, [o Oráculo], me declarando o mais sábio dos homens?, uma vez que a Divindade não mente, não poderia mentir.

Fiquei em dúvida durante muito tempo sobre o significado do Oráculo, até que, depois de grande fadiga resolvi fazer essa prova: fui à casa de um daqueles de nossos cidadãos que passa por um dos mais sábios da cidade, e esperava muito que lá, melhor que alhures, eu pudesse refutar o Oráculo e lhe fazer ver alguém mais sábio que eu. Examinando então esse homem, - do qual não preciso dizer o nome, pois é suficiente que seja um de nossos maiores políticos – e ao conversar com ele, ocorreu-me que todos o consideravam sábio, e ele próprio se acreditava tal, mas não o era. Após essa descoberta, eu me esforcei para o fazer ver e sentir que não era o que pensava ser, e eis o que me tornou odioso àquele homem e a todos os que assistiam a nossa conversa.

Quando os deixei, pus-me a raciocinar comigo mesmo, e disse-me: eu sou mais sábio do que esse homem. Pode bem dar-se que nem ele, nem eu, façamos algo de belo nem de bom, mas há esta diferença: ele crê saber, ainda que não saiba nada, enquanto eu, não sabendo nada, não julgo saber.

Parece-me, então, que nisso eu seja um pouco mais sábio, porque eu não creio saber o que não sei.

Depois, fui à casa de um outro, que passava por mais sábio ainda que o primeiro, e encontrei a mesma coisa, e fiz lá novos inimigos.

Mas eu não me desgostei, e fui agora em busca de outros, mesmo sentindo que iriam me odiar. Embora muito desolado, porque temia as consequências, parecia-me que sem titubear eu deveria preferir a voz do Deus a todas as outras coisas, e encontrar nela o verdadeiro sentido, e que deveria ir de porta em porta, a todos os que tivessem mais reputação.

Eis, então, atenienses, todo o fruto que eu colhi de minhas pesquisas, porque é preciso dizer a verdade: todos os que passavam por mais sábios me pareceram, sem comparação, o serem de menos, e aqueles dos quais não se tem nenhuma opinião, eu os vejo mais dispostos à sabedoria.

É preciso acabar de vos dizer todos os meus passos, como também todo o trabalho que empreendi para refutar o Oráculo.

Após ter dialogado com todos esses grandes homens de Estado, fui aos Poetas, tanto aos que fazem Tragédias como aos Poetas Ditirâmbicos[2] e outros, não duvidando que me veja lá, como se diz, em flagrante delito, encontrando-me muito mais ignorante que eles.

Tomando assim aquelas de suas obras que me pareciam as mais elaboradas, lhes perguntei o que eles queriam dizer, e qual eram suas intenções, como para instruir-me a mim mesmo.

Tenho vergonha, atenienses, de vos dizer a verdade, mas no entanto é preciso dizê-la: de todos os que lá estavam, não havia um só homem que não fosse mais capaz de falar e dar as razões dos poemas do que aqueles que os haviam feito.

Assim, nesse pouco tempo eu descobri que os Poetas não trabalham por sabedoria, mas por certos movimentos da natureza, e por entusiasmo, como os Profetas e os Adivinhos, que dizem belíssimas coisas sem nada compreender do que dizem. Os Poetas me parecem ser desse número; percebi, ao mesmo tempo, que, por causa de sua poesia eles se julgam os mais sábios dos homens em todas as outras coisas, que não têm nenhuma relação com a arte, e das quais nada entendem.

Eu os deixei, então, persuadido de que eu estava ainda acima deles, pela mesma razão que me havia colocado acima dos grandes políticos.

Após os Poetas, finalizei pelos artesãos. Eu os busquei, pois, bem convencido de que eu não entendia nada de sua profissão, e bem persuadido de que os acharia muito inteligentes e muito capazes, e não me enganei.

Eles sabiam tudo o que eu ignorava, e nisso eles eram muito mais sábios que eu. Todavia, atenienses, todos os mais hábeis me pareciam cair na mesma falta que os Poetas. Pois não havia nenhum deles que, por exercer admiravelmente a própria Arte, não se julgasse muito capaz e muito instruído sobre as maiores coisas, e esta única extravagância ofuscava toda sua habilidade.

Eu perguntava então a mim mesmo, como falando para o Oráculo, se eu gostaria de ser tal como sou, sem toda a habilidade daquelas pessoas, e também sem sua ignorância, ou ter uma e outra e ser como elas: e respondi a mim mesmo, e ao Oráculo, que me seria muito mais útil ser como eu sou.

Foi dessa busca, atenienses, que nasceram todos os ódios e inimizades tão perigosos e tão capitais que produziram todas as calúnias que conheceis, e deram ocasião a que me dessem o nome de sábio.

Os que me escutam pensam que eu sei todas as coisas sobre as quais coloco a descoberto a ignorância dos outros. Ora, parece-me, atenienses, que somente Deus é verdadeiramente sábio, e que é também o que ele quis dizer por seu Oráculo, fazendo compreender que toda a sabedoria humana não é grande coisa, ou, melhor dizendo, que ela nada é.

Quanto ao que o Oráculo denominou Sócrates, sem dúvida ele se serviu de meu nome tomando-me como exemplo, como a dizer a todos os homens: o mais sábio entre vós é aquele que reconhece, como Sócrates, que não há em si mesmo, verdadeiramente, nenhuma sabedoria.

Convencido, pois, desta verdade, para dela me assegurar ainda mais, e para obedecer a Deus eu continuei essas pesquisas, não somente entre os cidadãos, mas também entre os estrangeiros, na tentativa de encontrar quem fosse verdadeiramente sábio, e não encontrando, sirvo de intérprete ao Oráculo, fazendo-os perceber que não têm nenhuma sabedoria em si mesmos.

Com isso me ocupo tanto que não tenho o lazer de me ocupar minimamente com a República, nem ter o devido cuidado com meus negócios, e vivo numa grande pobreza por causa desse culto e desse serviço contínuo que presto a Deus.”[3]

 

Os atenienses não perdoaram aquele sábio Filósofo. Ele foi declarado culpado e condenado à morte por envenenamento. Isso tudo porque, segundo alguns, Sócrates fazia perguntas irritantes. Mas o que Sócrates defendia é que devemos buscar a verdadeira sabedoria, que consiste numa humildade genuína, a que admite sempre, e sinceramente: “Posso estar enganado”.

 

 

Equipe Filosofia no ar / TC - 17/02/2008.



[1] Apologia: discurso escrito que visa a defender, a justificar uma pessoa, uma doutrina; defesa. (Petit Robert)

[2] Da antiguidade grega: elogioso.

[3] Les Œuvres de Platon, traduite en François, avec des remarques – Tome second, 1699. Traduzido para o português pela Equipe Filosofia no ar.

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