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Fatores de obstrução à cultura na vida econômica e espiritual

Fatores de obstrução à cultura na vida econômica e espiritual[1]

 

Albert Schweitzer

 

Se a falência do pensamento e a causa preponderante do declínio da cultura[2], surgem a seu lado outras que dificultam a cultura em nossos dias. Vamos encontrá-Ias tanto no terreno espiritual como no econômico e se apoiam, principalmente, na manifestação cada vez mais desfavorável da influência recíproca entre o econômico e o espiritual.

A capacidade de cultura do homem moderno baixou, uma vez que as condições a que ele se acha vinculado o amesquinham e o prejudicam psiquicamente.

Mui genericamente falando, o desenvolvimento da cultura baseia-se no fato de que os princípios estabelecidos pela razão, que contribuem para o progresso do todo, brotando na mente de cada um, entram de tal forma no embate com a realidade que possibilitam também os mais adequados meios para influir sobre as condições ambientes.

A faculdade de alguém se tornar portador de cultura e de trabalhar por ela, depende necessariamente da condição de que seja um homem pensante e livre. Pensante, sim, deverá ser, e habilitado sobretudo a compreender e saber dar forma aos princípios da razão. Livre, também, urge que o seja, para que se torne suficientemente apto para orientar seus princípios para o universal e genérico. Ora, se alguém é demasiadamente absorvido, seja de que forma for, na luta pela vida, tanto mais fortemente terá os seus ideais perturbados pelo desejo de melhorar as suas condições normais de subsistência. O interesse imediato termina prevalecendo sobre os ideais de cultura, conturbando-os.

Liberdade material e liberdade espiritual estão intimamente ligadas. A cultura subentende homens livres. Por esses, somente por esses, é que ela pode ser ideada e realizada.

No homem da atualidade, porém, tanto a liberdade como a capacidade de pensar caíram de nível.

Se as circunstâncias da vida houvessem-se desenvolvido de tal jeito que uma condição de bem-estar modesto e perdurável se estendesse a um número sempre maior de indivíduos, disso adviriam, necessariamente, para a cultura, muito maiores vantagens que as decorrentes de todas as conquistas materiais que em seu nome são cantadas em prosa e verso. Essas conquistas tornam, é verdade, a humanidade em si menos dependente da natureza, do que antes era, mas, concomitantemente, vai diminuindo o numero de vidas independentes. Do mestre de manufaturas, pela intervenção da máquina, surge o trabalhador de fábrica. Em lugar do negociante, ativo e independente, aparece cada vez em maior numero o empregado de comércio, dado que no complexo e emaranhado jogo de transações da atualidade só se toleram os capitais vultuosos. E até mesmo os grupos em que posses maiores ou menores, ou em que atividades mais ou menos independentes se tenham conservado, são cada vez mais, arrastados para o torvelinho da luta pela vida, em vista da instabilidade e da insegurança decorrentes do atual sistema econômico.

A falta de liberdade, proveniente de todas essas circunstâncias, é ainda mais exacerbada pela luta da produção que reúne um número sempre crescente de pessoas em aglomerações de trabalho, arrancando-as, por esse modo, do contato benéfico com a terra, da natureza e do lar.[3] Daí decorre, necessariamente, um profundo dano psíquico para todos. O dito paradoxal de que com a perda do chão e da casa própria começa uma vida anormal peca somente em apresentar a mais cruciante verdade.

Não queremos por em dúvida que no ideal que tem por base o interesse, ideal dos muitos que se congregam para a defesa de árduas condições de vida que pesam sobre todos eles, não deixe de existir, a seu modo, uma aspiração de cultura, na medida em que os insatisfeitos lutem pela melhoria de suas condições materiais e, concomitantemente, também, pela melhoria de suas condições espirituais. Em face de uma interpretação autêntica da cultura, porém, devem ser como tais considerados elementos nocivos, sabendo-se que, a despeito da bandeira de reivindicações com que se apresentam, não encarnam, ou só encarnam mui imperfeitamente, o interesse geral. Diante de ideais movidos pelos interesses que se contradizem, que se atiram uns contra os outros, em nome da cultura, detém-se a interpretação da cultura como tal.

 

Uma concepção rebaixada do valor humano generaliza-se.

 

À falta de liberdade junta-se a estafa, a saturação pelo trabalho. Há duas ou três gerações a esta parte, vivem os indivíduos apenas como trabalhadores, não mais como seres humanos. O que em geral se possa dizer quanto à significação moral e espiritual do trabalho, não os atinge mais. O habitual excesso de ocupações do homem moderno, em todos os círculos sociais, tem como consequência lógica o amesquinhamento do seu espírito. E, indiretamente, já desde a infância, é arrastado para isso. Esmagados pela implacável necessidade de trabalhar, os pais por seu lado já não podem consagrar aos filhos o adequado espaço de tempo que normalmente lhes deveriam consagrar. Com isso o filho deixa de receber muitas coisas reconhecidamente indispensáveis ao seu natural desenvolvimento. Mais tarde o próprio indivíduo, absorvido também pelo excesso de trabalho, sente cada vez mais a necessidade de uma dispersão exterior. O pouco de lazer que lhe resta das horas de labuta, para cuidar de seu espírito ou manter trato proveitoso com pessoas ou livros, exige dele um esforço tal, uma tal soma de energias que quase o desencoraja de fazê-Io. Completa inatividade, esquecimento e fuga de si mesmo é o seu grande imperativo físico. Seu tudo é não pensar. Não procura cultura, mas distração e, dentre as distrações, aquelas que menor esforço espiritual reclamem.

A mentalidade desses seres dispersivos, incapazes de concentração, exerce por sua vez uma ação reflexa sobre todos os órgãos que logicamente deviam servir à sua formação e, por conseguinte, à cultura. Restringe-se o gosto pelo teatro em favor dos centros de diversões e de espetáculos frívolos; o livro útil cede lugar ao fútil. Jornais e revistas se veem na contingência de oferecer de dia para dia a forma de leitura mais simplificada possível a seus vazios leitores. Um confronto da média geral do modo de apresentação da imprensa diária com a de cinquenta ou sessenta anos passados, mostra-nos, bem claro, quanto ela deixa a desejar nesse terreno.

Uma vez dominados por esse pendor de superficialidade exercem os órgãos, que deveriam entreter a vida espirituaI, ação retroativa sobre a sociedade que os Ievou a essa triste situação e descarrega sobre ela a eiva desse imenso vazio espiritual.

A que ponto esse vazio de ideias do homem da atualidade chegou a formar nele uma segunda natureza, revela-o a sociabilidade que pratica. Onde quer que tenha oportunidade de conversar com seu semelhante faz todo o possível para não se afastar do terreno das generalidades, de modo a não entrar nunca numa verdadeira troca de ideias. Não possuindo nada mais que possa chamar seu, é cruelmente torturado por uma espécie de fobia, medo de que alguém venha a exigir dele algo que lhe seja próprio.

Esse tipo de espírito que a sociedade de dispersivos criou, toma vulto de dia para dia entre nós. Uma concepção rebaixada do valor humano generaliza-se. Nos outros e em nós próprios só procuramos descobrir eficiência, a eficiência do trabalhador, uma vez que, para além disso, a quase mais nada aspiramos na vida.

No tocante à liberdade e a orientação de espírito, as condições de vida para os habitantes das grandes cidades se mostram mais desfavoráveis ainda. Consequentemente também se encontram espiritualmente mais ameaçados que alhures. E foram, perguntamos, algum dia, as grandes cidades centros de cultura, no sentido de que nelas se tenha formado o protótipo do homem notável pela sua personaIidade espiritual? Pelo menos hoje as coisas estão em tal pé que é preciso livrar, quanto antes, a cultura desse espírito que se propaga dos grandes centros e dos homens que respiram a atmosfera dos grandes centros.

 

Como é restrita a liberdade do professor primário de hoje em tantos países do mundo...

 

À falta de liberdade e a dispersão de espírito do homem atual junta-se ainda, como obstáculo psíquico a realização de cultura, a sua imperfeição. A desmedida expansão e o desenvolvimento dos ramos do saber e da ciência levam necessariamente à contingência de que a atividade de cada um se restrinja a um determinado campo do conhecimento.  surge em cena a racionalização do trabalho de cada um em favor de um todo. Os resultados são magníficos. Mas o significado espiritual do trabalho para o trabalhador some de vista. Apenas uma parte de suas aptidões (não o homem orgânico) é levada em linha de conta. E isso exerce fatalmente uma ação retroativa sobre o indivíduo. Forças formadoras da personalidade que existem nos empreendimentos de maior alcance, desaparecem, por completo, nos de menor amplitude, que, a seu turno, falando de um modo geral, são menos espirituais. O trabalhador manual de hoje não entende mais tão bem do seu ofício como os de antigamente. Não prevalece mais hoje em dia na arte de trabalhar a madeira ou o metal o processo das fases sucessivas, como antigamente se fazia, uma vez que tais ou quais peça já existem prontas, pré-fabricadas, trabalhadas pela máquina ou pela mão de outros artífices. A capacidade de reflexão,  o dom de criar e o grau de saber do operário não tem mais necessidade de se distender em direções várias para a consecução de uma obra. A fantasia criadora e o dom artístico vão-se estiolando no trabalhador. Em vez da natural confiança em si, que nasce do trabalho, e na qual sempre e cada vez mais ele terá de firmar o seu pensamento, a sua individualidade, surge a necessidade de contentar-se com sua aptidão parcial aperfeiçoada que diante da especialização perde de vista a imperfeição do conjunto.

Em todas as profiss6es, e na ciência particularmente, evidencia-se cada vez mais o perigo espiritual das especializações, tanto com relação ao indivíduo, como com relação à vida espiritual em sua generalidade. Torna-se notório, também, que os encarregados de instruir a juventude já não mais possuem aquela visão universal das coisas, que os habilite a chamar a atenção dos jovens para a conexão que existe entre os vários ramos do saber, a fim de alargar-lhes o horizonte da compreensão dentro dos Iimites naturais.

E, como se a especialização e a racionalização do trabalho, onde essas modalidades são inevitáveis,  já não representassem prejuízo psíquico suficientemente danoso para o homem da atualidade, faz-se ainda todo o empenho no por em prática e no aperfeiçoar esses recursos até mesmo onde bem dispensáveis se mostram. Na pública administração, no ensino como nas demais espécies de atividade o espaço naturalmente destinado ao livre desempenho de suas funções, é logo restringido, no máximo possível, pela fiscalização e pelos regulamentos. Como é restrita a liberdade do professor primário de hoje em tantos países do mundo, posta em confronto com a que ele gozava antigamente! Como perdeu a vivacidade, como se tornou apagada e impessoal a sua maneira de instruir, devido a essas impertinentes limitações!

Pelo nosso modo de trabalhar saímos perdendo já espiritualmente, já como indivíduos, isso à medida que conseguíamos elevar ao auge as conquistas materiais da coletividade. Mas aí também se cumpre aquele trágico princípio segundo o qual a cada lucro corresponde, de alguma forma, um prejuízo.

Contudo, ao mesmo tempo, tanto os que não são livres, como os dispersivos e os incompletos, correm ainda o risco de resvalarem para a total desumanização da vida.

Dificulta-se de dia para dia o trato de homem para homem. Pela precipitação de nosso modo de viver, pela intensidade do trânsito, pelo trabalho em conjunto nos escritórios e pela moradia em comum de muitas pessoas em pequeno espaço, recebemos, continuamente e pelos mais variados modos, a impressão de que somos estranhos a conviver com estranhos. As circunstâncias da vida não permitem que convivamos de outro modo, de homem para homem. Essa restrição que nos é imposta no livre exercício da convivência humana torna-se tão generalizada, tão cotidiana, tão íntima, que afinal terminamos nos afeiçoando à situação reinante, a ponto de não mais darmos conta de que a nossa conduta impessoal, em tudo e por tudo, representa de fato uma anormalidade. Em muitas e muitas situações chegamos até a não sentir mais essa impossibilidade de conviver de homem para homem, indo afinal ao cúmulo de não fazê-Io quando isso se torna possível e até mesmo oportuno.

Como é natural, o psiquismo do habitante dos grandes centros é, nesse sentido, mais desfavorecido ainda e volta, por sua vez, a influir em sentido também desfavorável sobre a constituição psíquica da sociedade.

As afinidades com o nosso próximo desaparecem. Estamos aí a caminho franco da desumanização. Onde a ideia de que a pessoa como pessoa nos deva interessar periclita, periclitam também com ela a cultura e a moral. Daí para a desumanização completa da vida pouco vai; é questão apenas de tempo.

Na verdade, ideias reveladoras da mais cruel desumanização da vida, com a autoridade peremptória de um axioma, vem já transparecendo há duas gerações passadas, com enregelante clareza, através da conversa corrente de todos os dias. Resultou aparecer daí uma mentalidade social que segrega o indivíduo do resto da humanidade. Com isso desapareceu também a natural gentileza de sentimentos, imperando em seu lugar uma ostentação de absoluta indiferença, que se reveste das mais variadas formas. O decantado hábito de estabelecer logo distância e indiferença para com desconhecidos deixou de ser encarado como dureza de costumes ou dureza de coração, valendo antes como prova natural de bom-tom social. Por sua vez também a sociedade já não cogita de reconhecer no homem a dignidade e o valor que lhe competem como tal. Boa parte da humanidade é considerada apenas "material humano"[4], coisa, simplesmente e, se há muitas décadas passadas, com espantosa e crescente facilidade, foi possível falar em guerra e em conquistas guerreiras, como se se tratasse de um simples lance de jogo num tabuleiro de xadrez, se assim aconteceu é porque logicamente já se havia formado o consenso geral que timbrava em não levar em consideração o valor do indivíduo, a sua superior destinação, considerando-o mera expressão numérica, uma coisa, simplesmente. Sobrevindo a guerra, esse germe de desumanidade, que existia dentro de nós, ganhou livre curso, e não cogite ninguém em saber, nestes últimos decênios, o que de crueldades, desde as mais refinadas até as mais grosseiras, praticadas contra homens de cor e relatadas em publicações coloniais, não passaram a ser consideradas como recursos naturais e lógicos na mente dos parlamentos e da opinião pública europeia! Há vinte anos passados, em um certo Parlamento do Continente europeu, foi mesmo admitido, na tribuna parlamentar, o uso de uma expressão[5]só aplicável a bichos, como se se tratasse de alimárias, com relação a míseros pretos deportados, que haviam sido deixados morrer de fome, de sede, e atacados de moléstias contagiosas...

No ensino moderno como nos modernos livros escolares o conceito de humanismo é posto de lado como se não fosse mais verdade que esse conceito seja o conceito básico da formação da personalidade, que esteja fora de propósito para a nossa geração e não necessite mais de ser conservado para enfrentar as mil e uma influências que nos envolvem pela vida afora. Antigamente não era assim. Essa ideia predominava não só nas escolas como na literatura e até nos simples romances de aventuras. o Robinson Crusoé, de De Foë, vive constantemente preocupado com a ideia de humanismo, de uma ponta a outra do romance. Sente-se tão responsável com relação à humanidade que, ao desenvolver a sua defesa pessoal, prima em formular argumentos de como sempre procurara sacrificar o menor numero possível de vidas, colocando-se assim, plenamente a serviço do gênero humano, que só nesse ideal a sua vida de aventureiro tinha razão de ser. Onde, em qual delas, nas obras hodiernas de tal gênero, podemos encontrar essa conceituação da vida?

 

A superorganização das nossas instituições públicas é também um elemento de obstrução à cultura.

 

Tão certo como uma situação bem regulamentada pressupõe e é ao mesmo tempo consequência da cultura, tão certo é também que a partir de um dado ponto a organização exterior de determinado ramo só se mantem à custa de energias de nossa vida espiritual. As pessoas como as ideias têm de submeter-se às múltiplas exigências das instituições, em vez de poder influir sobre elas e de animá-las internamente.

Quando se funda num setor qualquer uma organização representativa, acusa ela, na primeira fase de seu desenvolvimento, brilhantíssimos resultados; com o andar dos tempos, porém, esses resultados se retraem. É que na primeira fase veio à tona toda a riqueza de energias do entusiasmo preexistente; depois, sobrevém o retraimento da vitalidade e da originalidade do período inicial do funcionamento.

Quanto mais coerente consigo mesma se mostrar a organização, tanto mais fortemente se revela a sua onda de obstrução sobre os elementos verdadeiramente produtivos e espirituais. Ha organizações estatais cultas que não conseguem recuperar suas energias, quer econômica, quer espiritualmente falando, em consequência de uma centralização demasiado profunda da administração, já desde épocas remotas.

Transformar em parque uma grande mata e conservá-Ia como tal, sob muitos pontos de vista pode ser acertado; todavia fica perdida de uma vez para sempre a possibilidade futura do enriquecimento da mata pelos processos naturais da vegetação.

Organizações políticas, religiosas e econômicas estão hoje empenhadas em se conservar de tal forma que mantenham o máximo de coesão interna para assim conseguirem o maior grau possível de atuação externa. Estatutos, disciplina e outros tantos aspectos da preocupação tecnicista são levados a uma perfeição jamais prevista em outras épocas. O alvo é atingido. Na mesma proporção, porém, tais coletividades cessam de agir como organismos vivos e se apresentam cada vez mais em analogia com a perfeição fria e rígida das máquinas. Sua vitalidade interna perde a opulência, perde a maleabilidade, uma vez que dentro delas as individualidades necessariamente perdem sua força de ação.

Toda a nossa vida espiritual decorre dentro de organizações. Desde a infância, o homem da atualidade é de tal forma assediado pelas ideias de disciplina que aos poucos vai perdendo de vista a sua existência individual, para somente continuar vivendo e pensando dentro do espírito de uma coletividade. De um conflito entre modo de pensar, e modo de pensar, de choques de ideias entre uns e outros, que fazia a grandeza do Século Dezoito, hoje não se tem mais notícia. Naqueles áureos tempos não se reconhecia a obrigação de acatar o modo de pensar das coletividades. Todas as ideias, fossem quais fossem, tinham de passar primeiro pelo crivo da opinião de cada um. Hoje, porém, está arvorada em regra comum, e muito natural, submeterem-se todos, sem discrepância, às concepções coletivas vigentes nas sociedades organizadas. Tanto para si como para os outros o indivíduo estabelece, de antemão, que em matéria de nacionalidade, confissão, filiação partidária, profissão e semelhantes cogitações já existem a priori, em cada caso, um certo número de concepções firmes e intangíveis. Essas têm força de um tabu e estão definitivamente a salvo não só da crítica como até de serem objeto de uma simples e inocente palestra. Esse sistema pelo qual mutuamente nos sonegamos a qualidade de seres pensantes, e por eufemismo chamado "respeito pelas convicções”, como se pudesse existir uma convicção sem pensamento e crítica.

O homem da atualidade é, de um modo sui-generis, absorvido pela massa. Traço característico de sua maneira de ser, talvez. Até mesmo a diminuta capacidade de interessar-se pela sua personalidade o predispõe, com certa morbidez, a se tornar um receptivo das ideias e concepções já prontas e formuladas, postas em circulação pelas instituições sociais e seus órgãos. Ora, como no caso ainda acresce que a sociedade pela sua quintessenciada organização adquiriu um poder nunca visto no terreno da vida espiritual, a falta de independência do indivíduo para com ela é tal, que quase cessa de valer como expressão pensante. É como uma bola de borracha que, tendo perdido a elasticidade, conservasse duradouramente a impressão recebida. A coletividade dispõe dele a seu bel-prazer. Dela recebe as opiniões já formuladas, como quem recebe uma mercadoria de encomenda, opiniões que passam a reger a sua vida, quer se trate de assunto trivial de agremiações cívicas ou políticas, quer de problemas atinentes a crenças ou a descrença.

Esse profundo pendor para ser assim influenciada, a pessoa em sã consciência não interpreta como fraqueza. Em seu modo despersonificado de ver, trata-se aí, simplesmente, de uma contribuição ou de uma cooperação social. Nessa abdicação incondicional da pessoa em favor da coletividade, o indivíduo ainda pensa que está defendendo a grandeza do homem moderno e, de caso pensado, intencionalmente, leva ao cúmulo essa natural devoção à sociabilidade.

Assim sendo, e uma vez que abrimos mão da supremacia do valor individual, não pode também a sociedade elaborar novas ideias ou renovar condignamente as que existem, limitando-se tão-somente a assistir como as ideias vigentes ganham força de dia para dia, cada vez mais unilaterais, até chegarem às suas últimas e funestas consequências.

Desse modo entramos numa nova Idade Média. Por via de uma tácita e geral abdicação da vontade, a liberdade que cada um tinha de pensar foi posta fora de combate, vista que um sem-número de indivíduos abriu mão do direito de refletir como pessoa livre e consciente, deixando-se simplesmente conduzir como parte integrante de coletividades.

Só poderemos reconquistar liberdade espiritual no dia em que cada um se tornar de novo espiritualmente emancipado e conseguir reencontrar a verdadeira e natural conexão que deve existir entre a sua pessoa e a organização a que se ache preso psiquicamente. Muito pior que a luta pela libertação por que passaram outrora os povos da Europa, na época medieval, vai ser agora o combate da atualidade para se ver livre desta nova Idade Media. Naquele tempo a luta era uma luta histórica dirigida apenas contra a prepotência de uma autoridade externa. Agora o problema é outro: trata-se hoje de levar todos e cada um a se libertarem de uma escravidão espiritual que eIes livremente urdiram, com as próprias mãos. Haverá tarefa maior?

Não existe ainda uma noção generalizada da nossa imensa miséria espiritual. De ano para ano agrava-se nas coletividades a tendência de propagar ideias sem que se reflita sobre elas. E chegaram a uma tal perfeição os métodos nessa maneira de proceder, tiveram tal aceitação, que a sem-cerimônia de querer apresentar onde e quando pareça oportuno ainda que seja a coisa mais absurda deste mundo, como expressão da opinião pública, dispensa logo qualquer introdução justificativa.

Na guerra a compressão do pensamento chegou ao auge. A propaganda desbancou decididamente a verdade.

Com a derrocada da independência do pensar perdemos, e não poderia ser de outro modo, a confiança na verdade. Nossa vida espiritual está em crise. A superorganização das instituições públicas vai se encaminhando a olhos vistos para uma organização de completa supressão do pensamento.

Quer intelectual, quer moralmente falando, a relação entre o indivíduo e a coletividade está abalada. Abdicando de ter opiniões próprias, o homem de hoje deixa de ter também julgamento moral próprio. Premido nessa situação de ter de sancionar o que a coletividade por atos e palavras julga bom, ou para reprovar o que ela acha mau, sente-se coagido a recalcar o seu mais íntimo sentir. Não só diante dos outros, mas perante si mesmo, nunca deixa prevalecer os ditames da razão. E não há princípios, por grandes que sejam, sobre os quais ele não possa saltar, em nome dos seus imperativos, como parte integrante que e do rebanho social. Assim, sacrifica o seu modo de sentir

em favor do modo de sentir da massa e troca o seu senso

moral pelo senso moral comum.

Fica desse modo perfeitamente credenciado a justificar todos os desatinos, todas as crueldades, toda a injustiça e toda a maldade de procedimento de sua nação. Inconscientemente até, a maior parte dos súditos de nossos incultos "estados civilizados" restringem o seu modo de pensar como indivíduos, como pessoas, a fim de não correrem o risco de a cada passo estabelecer conflitos com o meio ambiente, evitando também por esse modo novos remordimentos da consciência.

Surge logo em seu socorro a opinião coletiva, porquanto é próprio dela sustentar que os atos das comunidades devem ser medidos menos pelo critério da moralidade que pelo da oportunidade. Mas, ai deles: a sua alma necessariamente colherá o resultado. Desta forma, sendo certo que entre os homens de hoje tão poucos existem que possam ser chamados dignos desse nome, quer humana, quer moralmente falando, nada de admirar, visto que no geral sacrificam a sua moral individual no altar da Pátria, ao invés de entrar em luta com o ambiente, conservando com essa atitude a força destinada a melhorar o modo de conduta da coletividade.

Não só entre os fatores econômicos e espirituais, mas também entre a coletividade e o indivíduo estabeleceu-se assim uma influência recíproca assaz desfavorável. Nos tempos do Racionalismo e da grande Filosofia, a sociedade sustentava a atividade de cada um pela confiança na supremacia da moral e da razão, o que geralmente era aceito e reconhecido como a coisa mais natural deste mundo. AqueIes eram então apoiados pela coletividade; hoje a coletividade nos esmaga. A bancarrota dos "Estados civilizados", que se evidencia cada vez mais de decênio a decênio, vai levando o homem da atualidade a uma derrocada completa. Está em plena marcha a desmoralização do indivíduo pela massa.

Como escravo; como tipo dispersivo; como ser incompleto; como um náufrago da desumanização da vida; como um vencido que abdicou de sua independência e de seu senso moral, submetendo-se às menores imposições da sociedade; como um ente que em todo o sentido experimentou restrições em seus propósitos de cultura, assim iniciou o homem de hoje a sua tenebrosa marcha nesta era tenebrosa. E a filosofia não teve olhos para ver a situação periclitante em que ele se achava: não se moveu, não fez tentativa alguma para ajudá-lo. Nem sequer procurou detê-lo para despertar a sua atenção para o que estava acontecendo.

Não se pensou em evidenciar a terrível verdade de que com o progresso da história e do desenvolvimento econômico, a cultura, longe de se tornar mais fácil, vai se tornando cada vez mais difícil.

 

 



[1] Do livro: Decadência e regeneração da cultura, cap. II, escrito entre 1900 e 1917. Ed. Melhoramentos, traduzido para o português por Pedro de Almeida Moura.

[2] “Genericamente falando, cultura é progresso, progresso material e espiritual tanto dos indivíduos como das coletividades. Em que consiste esse progresso? Primeiramente no fato de ter sido suavizada a luta pela subsistência, quer no tocante ao indivíduo, quer no tocante à coletividade. A criação das melhores condições possíveis de subsistência é um imperativo que em si e com relação ao aperfeiçoamento moral de cada um  - fim último da cultura – deve preponderar.” (Albert Schweitzer, em seu livro: Decadência e regeneração da cultura, cap. III – O fator moral como base da cultura.)

[3] “De todas as nações modernas a pior é aquela que considera insípida a vida doméstica. Diz-se que, dentro de casa, tudo e decoro, rotina e monotonia; enquanto fora tudo é aventura e variedade. Mas, na verdade, o lar é o único lugar onde se goza a verdadeira liberdade e p único ponto sobre a terra onde o homem pode alterar de repente as suas disposições, fazer experiências e entregar-se a seus caprichos. O lar não é o único lugar suave num mundo de aventuras; é, sim, o único lugar agreste num mundo de regras e tarefas rotineiras." G. K. Chesterton. N. d. T.

"O homem normal não gosta de viver no segundo andar. Gosta, é certo, de estar ali momentos apenas, a fim de apreciar o panorama. Quem mora em segundo andar não tem o devido contato vital com a terra, ponto de partida da vida orgânica." L. Hoyack. "Le Symbolisme de L'Univers"- Bibliotheque Chacornac - Paris - 1930. - N. d.T.

[4] A expressão "material humano" para designar conjunto de soldados em luta, número de pessoassacrificadas, homens que pagaram com a vida sua dedicação à Pátria, tornou-se, na última guerra, termo oficial nos relatórios militares e na linguagem da imprensa ... do mundo civilizado. N. d. T.

[5] No original, o termo “eingegangen”, entre aspas, p. p. do verbo “eingehen”, quer dizer deixar de existir, desaparecer, extinguir-se. N. d. T.

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