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Reverência pela vida 2 - Albert Schweitzer

Filosofia da Reverência pela vida

 

Albert Schweitzer

 

 

Se houver homens que se revoltam contra o espírito da irresponsabilidade; se houver personalidades bastante puras e profundas para que possam irradiar os ideais do progresso ético, então se iniciará uma atuação do espírito capaz de produzir uma nova maneira de pensar na humanidade.

 

 

“Pela sua própria natureza, a ideia da reverência pela vida está capacitada de maneira toda especial para travar a luta contra o cepticismo. Trata-se de uma ideia elementar.

Elementar é aquele raciocínio que parte das questões fundamentais da relação do homem com o mundo, do sentido da vida e da essência do bem. Ele se relaciona diretamente com o raciocínio que se manifesta em todo homem, ampliando-o e aprofundando-o.

Tal raciocínio elementar existe no estoicismo. Quando, como estudante, iniciei a caminhada através da história da filosofia, custou-me despedir do estoicismo e prosseguir o caminho rumo às ideias tão diferentes que vinham em seguida. É bem verdade que seus resultados não me satisfaziam. Mas eu tinha a sensação de que essa maneira simples de filosofar era correta, e não compreendia porque se havia renunciado a ela.

O estoicismo parecia-me grande pelo fato de caminhar em linha reta rumo ao objetivo; de ser compreensível e profundo ao mesmo tempo; de contentar-se com a verdade, reconhecida como tal, embora insatisfatória; de vivificar essa verdade pela seriedade com que se lhe entrega; de possuir o espírito da veracidade; de persuadir o homem a recolher-se em si mesmo e espiritualizar-se, e, finalmente, pelo fato de despertar no homem a convicção da responsabilidade. Também considerava verdadeira a ideia fundamental do estoicismo de que o homem deve entrar numa relação espiritual com o mundo e tornar-se um só com ele. Na sua essência, o estoicismo é uma filosofia da natureza que chega até a mística.

Tal como as ideias do estoicismo, achei igualmente elementares as ideias de Lao-Tseu quando me familiarizei com o seu Tão te king. Também Lao-Tseu ensina que o homem, mediante um raciocínio simples, deve entrar numa relação espiritual com o mundo, e se manter nessa comunhão durante a sua vida.

O estoicismo grego e o chinês são, pois, aparentados na sua essência. Distinguem-se um do outro apenas pelo fato de que o grego resultou de um raciocínio desenvolvido e lógico, enquanto o chinês nasceu de um raciocínio não desenvolvido, porém maravilhosamente profundo e intuitivo.

Esse raciocínio elementar, que surge na filosofia europeia e extra-europeia não consegue manter a soberania, e acaba perdendo-a em favor do não-elementar. Não mantém o predomínio, porque seus resultados não satisfazem. Não consegue compreender como dotado de sentido o impulso para a atividade e para os atos éticos, que se encontra inerente à vontade de vida do homem espiritualmente desenvolvido. Eis a razão por que o estoicismo grego se detém junto ao ideal da resignação, e Lao-Tseu vê o ideal naquela bondosa inatividade que a nós, europeus, parece tão estranha.

Em última análise, toda a história da filosofia consiste em que as ideias de uma afirmação ética do mundo e da vida, naturalmente presentes no homem, não se podem satisfazer com o resultado do raciocínio simples e lógico sobre o homem e sua relação   com o mundo, porque não conseguem imaginar-se nessa relação. Por conseguinte, forçam o raciocínio a dar voltas, através das quais esperam alcançar o objetivo. Desta forma, ao lado do raciocínio elementar surge um raciocínio multifário e não-elementar que enreda e, às vezes, cobre completamente aquele.

As voltas seguidas pelo raciocínio tomam principalmente o rumo da tentativa de uma interpretação do mundo que pretende apresentar como dotada de sentido a vontade da ação ética. No estoicismo de um Epicteto e de um Marco Aurélio, no racionalismo do século 18 e em Lao-Tseu (Confúcio), Meng-Tse, Mi-Tse e outros pensadores chineses, a filosofia, que parte do problema elementar da relação do homem com o mundo, alcança a afirmação ética do mundo e da vida pelo fato de fazer remontar o acontecimento do mundo a uma vontade do mundo que visa a objetivos éticos, ocupando o homem neste sentido. Na ideologia dos brâmanes, de Buda, como em geral nos sistemas hindus e na filosofia de Schopenhauer é estabelecida a outra concepção do mundo, a qual defende a tese de que o ser, que se desenvolve no tempo e no espaço, é desprovido de sentido e apenas tem que ser conduzido ao seu fim. Por conseguinte, o comportamento dotado de sentido, do homem para com o mundo, consistiria em morrer para o mundo.

Ao lado de um tal raciocínio que, pelo menos no seu ponto de partida e nos seus interesses, se conservou elementar, caminha paralelo, principalmente na filosofia europeia, um outro raciocínio não elementar, pois não tem como ponto central a questão da relação do homem para com o mundo. Esse raciocínio ocupa-se com o problema cognoscitivo-teórico, com especulações lógicas, com a ciência natural, com a psicologia, com a sociologia ou outra coisa qualquer, como se à filosofia coubesse a solução dessas questões em si, ou como se ela consistisse apenas em analisar ou compilar os resultados das diversas ciências. Ao invés de conduzir o homem a uma constante reflexão sobre si e sua relação com o mundo, essa filosofia comunica-lhe os resultados de uma teoria da cognição, da especulação lógica, das ciências naturais, da psicologia ou da sociologia como sendo algo que deva servir de orientação para a sua concepção da vida e sua relação com o mundo. Tudo isso a filosofia lhe apresenta como se o homem não fosse um ser que se encontra no mundo e nele se realiza, mas como se fosse um ser colocado ao lado do mundo e que o olha como espectador.

 

Relação espiritual entre o homem e o mundo

 

Esta filosofia europeia não elementar, por partir de qualquer ponto arbitrariamente escolhido, para ocupar-se com o problema da relação entre o homem e o mundo, ou por não ocupar-se com ele, não possui unidade, é irrequieta, artificial, excêntrica e fragmentária. Por outro lado, porém, ela é a mais rica e mais universal. Nos seus sistemas, semi-sistemas e não-sistemas que se sucedem ou se emaranham, ela encara o problema da concepção do mundo de todos os lados e de todas as perspectivas possíveis. Também, ela é a mais objetiva no sentido de penetrar mais profundamente nas ciências naturais, na história e nas questões da ética do que as demais.

A filosofia mundial vindoura surgirá não tanto da discussão entre ideologias europeias e não-europeias como entre o raciocínio elementar e o não-elementar.

À margem da vida espiritual do nosso tempo encontra-se a mística. Por sua natureza ela é raciocínio elementar, porque se ocupa diretamente em conduzir o homem a uma relação espiritual com o mundo. Mas ela desespera da possibilidade de realizar isso mediante o raciocínio lógico, contentando-se como raciocínio intuitivo no qual pode atuar a imaginação. Neste sentido, a mística remonta também a um raciocínio que tenta dar voltas. Desde que só um conhecimento nascido do raciocínio lógico tem valor, não se podem transformar em nossa propriedade espiritual as convicções contidas em semelhante mística. De mais a mais, não satisfazem. De todas as místicas, até hoje, há a dizer que seu conteúdo ético é insuficiente. Elas conduzem o homem ao caminho da vida interior, mas não a uma ética viva. A verdade de uma concepção do mundo tem que demonstrar seu valor através da relação espiritual entre o homem e o mundo, tornando-nos criaturas interiores, dotadas de uma ética viva.

Por conseguinte, nem o raciocínio não-elementar que faz a volta pela explicação do mundo, nem o raciocínio místico-intuitivo podem remediar a ausência de raciocínio em nosso tempo. Poder sobre o cepticismo somente tem o raciocínio elementar, que se baseia no raciocínio natural existente nos muitos indivíduos, e o desenvolve. O raciocínio não-elementar, porém, que lhes apresenta quaisquer resultados de raciocínio, obtidos de qualquer maneira, não é capaz de conservar-Ihes o raciocínio próprio, mas tira-lhos, para dar-lhes outro em substituição. Essa aceitação do raciocínio alheio significa uma perturbação e um enfraquecimento do raciocínio próprio. Ela é um passo no caminho para a aceitação dessa verdade alheia e com isso um passo para o cepticismo. Assim os grandes sistemas da filosofia alemã do começo do século 19, acolhidos a seu tempo com entusiasmo, prepararam o campo em que mais tarde se desenvolveria o cepticismo.

Tornar os homens de novo pensantes significa, pois, fazê-los achar o seu próprio raciocínio, a fim de que com ele tratem de chegar à cognição da qual necessitam para a vida. No pensamento da reverência pela vida dá-se uma renovação do raciocínio elementar. O rio, que correu grande trecho abaixo do solo, torna a vir à superfície.

Que o raciocínio elementar agora chega a uma afirmação ética do mundo e da vida, que antes inutilmente ele procurava alcançar, não é uma ilusão, mas explica-se pelo fato de ele se ter tornado absolutamente objetivo.

Antigamente ele encarava o mundo apenas como uma totalidade de acontecimentos. Com esta totalidade de acontecimentos o homem não pode entrar em relação espiritual a não ser que trate de acomodar-se espiritualmente a ela, resignando-se a ser a ela submetido naturalmente. Com essa acepção da vida, ele não consegue dar sentido à sua ação. Não há consideração que o induza a pôr-se a serviço da totalidade dos acontecimentos que o esmaga. É-lhe fechado o caminho para a afirmação do mundo e da vida.

O que o raciocínio elementar, impedido por esta noção do mundo, inanimada e incompleta, não consegue atingir de maneira natural, ele procura então, em vão, obter à força, por qualquer explicação do mundo. É como um rio detido por uma montanha em seu caminho para o mar. Suas águas procuram contornar o obstáculo para achar uma saída. Inutilmente. Não alcançam senão novos vales, enchendo-os. Após séculos, as águas represadas conseguem enfim abrir caminho.

O mundo não é somente acontecimento, mas também vida. Em face da vida do mundo, até onde ela entra no meu âmbito, eu tenho que tomar uma atitude tanto passiva quanto ativa. Pondo-me a serviço do vivo, chego a uma atividade provida de sentido em prol do mundo.

Por mais simples e evidente que pareça a substituição da noção do mundo inanimado pelo mundo real, cheio de vida, depois de efetuada, faz-se necessária uma longa evolução, até ela tornar-se possível. Assim como as rochas de uma montanha emergida do mar só se tornam visíveis depois que os estratos de calcário que as cobriam pouco a pouco são levados pela chuva, assim em questões de concepção do mundo o raciocínio subjetivo cobre o objetivo.”

 

Trechos extraídos do Epílogo do livro: Minha vida e minha ideias, cap. XXI. Edições Melhoramentos.

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