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Reverência pela vida 1 - Albert Schweitzer

REVERÊNCIA PELA VIDA[1]

           

Albert Schweitzer

 

Dois fatos projetam sua sombra sobre a minha existência.

O primeiro consiste na compreensão de que o mundo é inexplicavelmente enigmático e cheio de sofrimento; o outro consiste em ter nascido numa época de declínio espiritual da humanidade. Enfrentei ambos os fatos com o raciocínio, o qual me conduziu a afirmação ética do mundo e da vida e a reverência pela vida. Eles deram apoio e sentido à minha existência.

Assim estou e atuo no mundo como quem, através do raciocínio, procura tornar o homem melhor e levá-Io a uma vida mais interior.

Encontro-me em completa contradição com o espírito da época, porquanto ele está repleto do desprezo pelo raciocínio.

Esta sua mentalidade se torna compreensível até certo grau pelo fato de que o raciocínio até agora não atingiu a meta proposta. Diversas vezes ele se tem persuadido de haver estruturado uma concepção do mundo cognitiva e eticamente satisfatória. Posteriormente, porém, sempre se tem verificado o fracasso dessa pretensão.

Assim acabaram surgindo dúvidas sobre se o raciocínio estaria um dia em condições de dar resposta às perguntas sobre o mundo e nossa relação com ele, de forma tal que pudéssemos dar um sentido e um conteúdo à nossa vida.

Além do atual desprezo pelo raciocínio há também desconfiança do raciocínio. As sociedades organizadas, sociais e religiosas, do nosso tempo procuram levar o indivíduo a haurir suas convicções não do próprio raciocínio, mas a adquirir simplesmente aquelas que já existem prontas. O homem que tem raciocínio próprio e assim mantém a sua liberdade espiritual, Ihes é incômodo e merecedor de desconfiança. Não oferece bastante garantia de diluir-setanto quanto é desejável, na organização. Todas as associações hoje em dia já não procuram sua força propriamente no valor espiritual das ideias, por elas representadas, e nos homens que lhes pertencem, mas na obtenção da maior uniformidade possível. Acreditam possuir assim a maior força de resistência e o maior impacto.

Por isso o espírito deste tempo não lastima, mas se alegra com o fato de que o raciocínio parece não estar à altura da sua tarefa. Não leva em conta o que, com toda a sua imperfeição, já se tem conseguido realizar de positivo. Não reconhece o fato de que, afinal de contas, todo o progresso espiritual feito até hoje é devido ao raciocínio. Tampouco quer levar em consideração a possibilidade de que o raciocínio acabará realizando no futuro o que não tem conseguido até o presente. O espírito desta época não admite tais ponderações. Seu objetivo é desacreditar, de todas as maneiras, o raciocínio individual. Aplica a frase: "A quem não tem, ser-Ihe-á tirado também aquilo que tem".

Por conseguinte, durante toda a sua vida, o homem de hoje está exposto ao efeito das influências que lhe pretendem roubar a confiança no próprio raciocínio. O espírito da dependência espiritual, à qual terá que entregar-se, encontra-se em tudo que ouve e Iê; encontra-se nos homens com quem lida; encontra-se nos partidos e nas associações a que pertence; encontra-se nas situações em que vive. De todos os lados, e das maneiras mais diversas ele sofre influência no sentido de que deve aceitar aquelas verdades e convicções, das quais precisa para a vida, por parte das associações que têm direito sobre ele. O espírito da época não o deixa refletir sobre si mesmo. Assim como uma organização comercial, através de anúncios luminosos nas ruas da metrópole, a cada passo exerce pressão sobre ele no sentido de preferir esta ou aquela graxa de sapato, este ou aquele produto para fazer sopas, assim também, constantemente, lhe são impingidas as convicções. Desta forma, através do espírito da época, o homem de hoje é levado a duvidar do seu próprio raciocínio, para que se torne acessível a verdades dadas autoritariamente. Ele não pode oferecer a necessária resistência a essas permanentes influências, porque ele é um ser super ocupado, disperso e distraído. Além do mais, a falta de liberdade material, que é o seu destino, atua de tal maneira sobre a sua mentalidade, que ele acaba acreditando na impossibilidade de ter ideias próprias.

Sua confiança em si mesmo é diminuída também pela pressão que sobre ele exerce o saber imenso e sempre crescente. Ele já não está em condições de adquirir os conhecimentos como algo que possa compreender primeiro, mas tem que aceitar algo não compreendido como correto. Através desta atitude perante a verdade científica ele cai na tentação de familiarizar-se com a ideia de que seu critério é insuficiente também em matéria de raciocínio.

Assim, as condições do tempo atual contribuem para nos entregarem ao espírito do tempo.

A semente do cepticismo desabrochou. Na realidade, o homem moderno já não possui confiança espiritual em si próprio. Atrás de sua aparência segura de si, ele esconde uma grande insegurança espiritual. Apesar de sua grande capacidade de realização material, ele é um homem a caminho do definhamento porque não faz uso da sua faculdade de raciocínio. Permanecerá incompreensível o fato de que a nossa geração, embora tenha a seu crédito tamanhas realizações materiais e científicas, tenha decaído espiritualmente a ponto de renunciar ao raciocínio.

 

A renúncia ao raciocínio é a declaração da bancarrota espiritual


Num tempo que considera ridículo, desprezível, antiquado e há muito superado tudo o que, de algum modo, é racional e liberal; num tempo que zomba até da proclamação dos permanentes direitos humanos feita no século 18, eu me confesso um homem que proclama sua confiança no pensamento racional. Ouso dizer à nossa geração que não creia ter superado o racionalismo só porque teve que ceder seu lugar primeiro ao romantismo e, em seguida, a uma política real que alcançou o domínio no terreno do espiritual e do material. Depois de ter atravessado todas as tolices dessa política real universal, e depois de ter resvalado cada vez mais profundamente para a miséria espiritual e material, no fim das contas não Ihe restará outra saída senão a de entregar-se a um novo racionalismo, mais profundo e mais capaz do que o anterior, e procurar nele a salvação.

A renúncia ao raciocínio é a declaração da bancarrota espiritual. O cepticismo começa onde termina a convicção de que os homens podem chegar ao conhecimento da verdade por meio do raciocínio. Aqueles que se empenham em tornar céptico o nosso tempo neste sentido, assim procedem na expectativa de que os homens, através da renúncia à verdade por eles conhecida, acabem aceitando aquilo que lhes é pregado, autoritariamente e por meio da propaganda, como verdade.

Esse cálculo está errado. Quem abre as comportas à enchente do cepticismo, a fim de que este se derrame sobre a terra, não espere que mais tarde possa contê-la.

Só uma diminuta parte daqueles que se deixam desencorajar da busca da verdade mediante o próprio raciocínio, encontrará um correspondente substituto na verdade aceita de outros. A própria massa permanece céptica. Ela perde o senso da verdade e de sua necessidade, e se conforma em viver sem ideias próprias e ser joguete de opiniões várias.

Mas a simples aceitação de verdades dadas autoritariamente, providas de conteúdo espiritual e ético, não detêm o cepticismo, apenas o encobre. O estado não natural, que consiste em o homem não acreditar numa verdade por ele mesmo cognoscível, continuará e provocará efeitos. A cidade da verdade não pode ser edificada sobre o terreno pantanoso do cepticismo. A nossa vida espiritual se encontra completamente em decomposição porque está completamente imbuída de cepticismo. Por isso estamos vivendo num mundo que, sob todos as aspectos, está repleto de mentira. E porque estamos querendo organizar a própria verdade, estamos em vias de perecer.

A verdade aceita pelo cepticismo que se tornou crente não possui as qualidades espirituais das verdades que surgiram através do raciocínio. Ela é materializada e inerte. Ela alcança influência sobre o homem, mas não consegue amalgamar-se interiormente com o seu ser. Verdade viva só é aquela que nasce do raciocínio.

Assim como a árvore, ano após ano, produz o mesmo fruto, mas sempre novamente, assim também todas as ideias de valor permanente têm que nascer sempre de novo. O nosso tempo, porém, tem a pretensão de tornar fértil a árvore estéril do cepticismo, amarrando nos seus ramos os frutos da verdade.

Só pela confiança de podermos alcançar a verdade por meio do raciocínio individual é que nos tornamos receptivos à verdade. O pensamento livre, dotado de profundidade, não resvala para o subjetivismo. Com suas próprias ideias ele movimenta dentro de si aquelas ideias que, na tradição, de algum modo, possuem valor, e esforça-se por possui-las mediante a cognição.

Tão forte quanto a vontade da verdade deve ser também a da veracidade.[2]Só uma época que possui a coragem da veracidade pode possuir a verdade que nela atua como força espiritual.

A veracidade é o fundamento da vida espiritual.

Pelo menosprezo do raciocínio, a nossa geração perdeu o sentido da veracidade e, com isso, o da verdade. Assim, só se pode ajudá-Ia reconduzindo-a ao caminho do raciocínio.



[1] Minha vida e minhas ideias, Epílogo. Ed. Melhoramentos, 1931.

[2] Respeito constante à verdade (Dic. Michaelis).

Veracidade divina: Atributo de Deus que garante a verdade de nosso conhecimento das coisas. (Petit Robert de la langue française)

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