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O sentido da vida - Darin McNabb

O sentido da vida[1]

Por Darin McNabb[2]

 

Não sei tu, mas são muito poucas as vezes que rio quando leio um texto de filosofia. Uma exceção é O Discurso sobre a origem da desigualdade, de Jean-Jacques Rousseau.

Em uma parte do texto ele pergunta o porquê da diferença entre os animais e os seres humanos. Não responde, como Aristóteles, que os humanos são racionais, mas que são livres e que têm a capacidade de aperfeiçoar-se, ou que são perfectíveis. Diz: “... um animal é, ao cabo de alguns meses o mesmo que será toda a sua vida, e sua espécie será, depois de mil anos, o que era no primeiro. Por que unicamente o homem está sujeito a degenerar-se em imbecil?”

A palavra imbecil é chistosa, em parte porque nos julgamos superiores aos animais, mas o que Rousseau disse é verdade. Os animais não são nem bons, nem maus, nem gênios, nem imbecis. Simplesmente são o que a natureza dita que sejam. Os humanos compartilham o lado animal, mas também o transcendem. Não temos que nos submeter totalmente aos ditames da natureza, ao contrário podemos traçar livremente o caminho de nossa vida. Lamentavelmente, para Rousseau, a grande maioria retira muito pouco proveito de sua liberdade e muitos se convertem em imbecis.

Entre os antigos gregos, e também no cristianismo, falava-se de uma grande cadeia do ser na qual o homem se situava entre o divino e o puramente físico e animal. Deus está acima, e abaixo, na sequência, os anjos, os demônios, o homem, as plantas, e finalmente os minerais. No limite inferior há o não-ser, e no superior a plenitude do ser. O homem, entre os animais e os anjos, ocupa um lugar privilegiado porque compartilha da natureza dos dois. Devido à sua liberdade pode inclinar-se mais para o lado espiritual ou mais para o lado físico/animal. Vemos esta relação dos seres nesta imagem de 1617 e também na representação dos chacras do hinduísmo que simboliza os possíveis níveis de manifestação da vida humana.[3]

Nietzsche falou da mesma ideia em Assim falou Zaratustra. Ele compara o homem e sua condição como estando numa corda bamba, estendida sobre um abismo entre a condição animal de um lado, e o Übermensch, o super-homem, de outro. Essa imagem é maravilhosa porque mostra muito bem o risco que implica transitar por uma vida verdadeiramente humana. A maioria prefere ficar em terra firme, na condição de animal. No entanto, a grandeza espiritual espera os que enfrentam o abismo. O que diz Nietzsche sobre o equilibrista é muito mais detalhado e complexo, mas o ponto é que muitos filósofos, desde Platão até Sartre, hão tratado a natureza indeterminada da vida humana e as possibilidades de transformação que estão ao seu alcance. Não vou falar aqui de tudo o que disseram, embora espere fazer posteriormente alguns vídeos a respeito. No entanto quero usar este tema como ponto de partida para expor o que, de forma um tanto pretenciosa, chamaria minha pequena teoria sobre o sentido da vida.

Esta pergunta é muito antiga e a grande maioria das pessoas, sejam filósofos ou não, a propuseram em algum momento. Acabo de buscar no Yahoo, em sua seção de perguntas e respostas. Muitos fizeram a pergunta e muitos responderam. Alguns dizem: “conhecer Deus”, outros, “amar”, “ser feliz”, “fazer o bem”. Outros, por suposto, são cínicos. E eu, o que digo? “O sentido da vida é____”. A verdade não sei, e nem sequer sei se se pode responder dessa forma proposicional. Em vez de preencher o vazio com uma resposta, gostaria de perguntar sobre o próprio sentido da pergunta. Por que a pergunta?

Suponho que poderia expor de forma desinteressada como, por exemplo, em filosofia perguntamos sobre a relação entre matéria e forma. Mas parece-me que surge em um contexto mais existencial ou vital. A pessoa que faz a pergunta não está pedindo a definição ou função do homem ou da vida, tal como um botânico faria a respeito de uma planta. O que busca não é SABER uma resposta, mas TER uma experiência de estar vivo, de viver plenamente, com sentido. Obviamente, ao fazer a pergunta não se sente vivo, sua vida não tem sentido. É como se sua vida fosse uma frase musical cujas notas tivessem muito pouca relação tonal entre si, como isto.[4] Talvez o sentido da vida consista em ter seus diferentes elementos arranjados e unidos entre si de tal forma que propicie uma simples qualidade positiva. Como escutar o sentido da vida como uma sinfonia, como algo que em toda sua extensão está banhado de propósito e sentido?

Minha intenção de uma proposta começa voltando às plantas.

Façamos a seguinte pergunta: Que é o sentido da vida para uma planta? Obviamente, a vida das plantas não tem um sentido como tal. Melhor seria perguntar por sua “função” ou “fim”. Que fazem as plantas, qual é sua função? Pois eu não sou botânico, mas creio que em geral poderíamos dizer que as plantas crescem, conseguem atingir certo tamanho e forma próprios de sua espécie, ter certa cor, como o verde, e exercem a fotossíntese.

Os antigos gregos faziam esse tipo de pergunta muito frequentemente. Tudo tem uma função, seja uma planta, um martelo, inclusive a psique humana. Todavia, eles não perguntavam apenas sobre a função, mas também sobre as virtudes (em grego “arete”) necessárias para que cada coisa atingisse seu fim, para que pudesse funcionar.

Arete significa poder por excelência. No caso de um martelo, por exemplo, as virtudes de que necessita são uma cabeça dura e um cabo em que se possa pegar. E a planta? Pois há certas condições que requer, como água e terra, mas para poder fazer a fotossíntese necessita de um poder ou virtude que os biólogos chamam heliotropismo. “Hélio” significa sol, e “tropos” significa girar. Os girassóis são famosos por fazê-lo, e de fato é por isso que se chamam assim, porque giram para o sol. Se não tivessem esse poder não poderiam funcionar, ou pelo menos não poderiam fazer bem seu trabalho de fotossíntese.

Como comentei, os antigos gregos perguntavam sobre a função de muitas coisas, incluindo a psique humana. No sentido mais básico, a função do ser humano para eles era simplesmente viver, mas como disse Sócrates, em Críton, não simplesmente viver, mas viver bem.

Voltando à planta, podemos distinguir entre uma planta que apenas vive e uma que vive e funciona bem. No entanto, não é tão fácil em se tratando da vida humana. Seja como for o conteúdo de uma boa vida humana, a virtude que Sócrates dizia ser necessária para se viver bem era a justiça, pelo que entendia uma certa relação hierárquica entre as diferentes partes da alma. Aqui não vou discutir esse grande tema d’A República de Platão, mas tratar de eu mesmo trazer algo.

Comecei perguntando sobre o sentido da vida de uma planta porque essa capacidade de girar para o sol que as plantas têm, que é o heliotropismo, me parece sugestiva de um ponto de vista metafórico. Trata-se de uma habilidade básica muito importante, sem a qual não poderiam funcionar bem.

Seja o que for a boa vida para os seres humanos, creio que necessitam de um poder semelhante. No caso dos humanos não se trata de heliotropismo, mas da admiração. Detenhamo-nos um momento sobre o sentido etimológico desta palavra. O termo vem da raiz latina “mirari”, que significa “maravilhar-se”, e o prefixo “ad” que significa “para”. Assim, quando admiras algo, te maravilhas dessa coisa.

  Como a flor que se volta para o Sol a fim de buscar seu sustento, o ser humano precisa buscar também seu sustento. O de que necessita é um exemplo, um modelo a seguir. O mecanismo que usa para encontrar o modelo é a capacidade de admirar, de sentir-se maravilhado de algo ou alguém.

Lembras-te do que disse Rousseau sobre os animais? “Um animal é, ao cabo de alguns meses, o mesmo que será por toda sua vida”. Ademais, o recurso instintivo de que necessitará para sobreviver já vem instalado de fábrica. Aos dois ou três meses de idade a cria abandona seus pais e vai, por sua conta, fazer sua própria família. O ser humano não. Dependemos muito e durante bastante tempo de nossos pais. Eles têm que nos ensinar a maioria das coisas que necessitamos para viver.

Essa capacidade de mudança ou formação, que Rousseau chamou de perfectibilidade, é o que explica a relativa variabilidade da conduta humana, pelo fato de que a vida pode ser vivida não só de forma simplesmente má ou boa, como ocorre com as plantas, mas má ou boa de muitas formas. Há muitos exemplos na história sociocultural da humanidade, desde imbecis até heróis.

A flor, ao voltar-se para o Sol, sempre recebe o de que necessita para florescer, mas o ser humano, ao admirar, não. Pode ocorrer que se fixe em um mau modelo, em alguém que tem um atrativo superficial, mas que na intimidade está viciado.

É por isso, como dizia Aristóteles, que a direção dos pais e dos demais que exercem influência sobre a criança, como professores e amigos, etc., é tão importante. São eles que semeiam as possibilidades do futuro da criança. Em meu caso não foi tanto uma pessoa, mas um sistema universitário que, no terceiro ano de meus estudos de biologia (é que queria ser médico), me obrigou a fazer um curso de filosofia.

Ninguém poderia tê-lo predito, mas no decorrer desse curso saiu o sol mais brilhante, e de forma quase automática, e eu girei na sua direção. Estava maravilhado!

Eu aprecio a Ciência, e creio que teria sido um bom médico, mas na figura de Sócrates encontrei meu modelo.

Que é o sentido da vida? Não sei. Só sei que a vida é significativa quando se vive maravilhado.



[1] Traduzido do original em espanhol “El sentido de la vida”, publicado no site La Fonda Filosófica: http://www.lafondafilosofica.com

[2] Darin McNabb, é professor de filosofia no Instituto de Filosofía de la Universidad Veracruzana, em Xalapa, Veracruz, México, e responsável pelo site La Fonda Filosófica.

[3] No vídeo o autor insere imagens para ilustrar.

[4] No vídeo o autor insere uma música para ilustrar o que diz. (Nota da tradutora)

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