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Um homem humilde

Um homem humilde

 

A história da humanidade é cheia de fatos interessantes, de pessoas que marcaram fortemente sua época, seja pela crueldade, seja pela bondade.

Os feitos que geralmente mais impressionam são as vidas de pessoas dedicadas ao bem comum, ao progresso de todos.

Uma dessas vidas, marcadas pela dedicação, pela benevolência e a humildade, é a de Jean-Marie Baptiste Vianney, dito Cura d'Ars.

Ele nasceu no seio de uma família pobre, humilde e muito religiosa, em Dardilly, perto de Lyon, França, a 8 de maio de 1786. Era um garoto diferente dos demais da sua idade, pois o que mais gostava de fazer era orar e praticar o recolhimento. Aprendera desde cedo a orar com a família, tomou gosto por essa prática, e encontrava nas preces fervorosas o alimento para sua alma e um meio de aliviar o sofrimento dos seus semelhantes.

A sua história é cheia de encanto e pureza, devotamento e abnegação, o que não o eximiu do sofrimento, pois esse ele conheceu bem de perto.

Quando nos surgiu a ideia de escrever sobre a humildade, logo nos veio à mente que a melhor maneira de entender essa virtude é mostrar como ela é vivida por alguém que a possui. Assim lembramos da vida desse grande homem.

Desde criança Vianney alimentava o sonho de ser padre, mas dois obstáculo se apresentavam quase intransponíveis: a pobreza e a escassa inteligência. A escassez de dinheiro poderia ser solucionada, bastava que alguém custeasse seus estudos, já que para ser padre precisaria estudar muito e sobretudo aprender o latim, mas a falta de inteligência parecia comprometer definitivamente o seu sonho.

Todavia, o jovem sonhador não abandonou seus objetivos e encontrou um amigo que resolveu ajudá-lo nos estudos de teologia: o padre Balley.

Depois de tantas lutas, de muito sofrimento e persistência, sempre com a ajuda de Balley, no dia 13 de Agosto de 1815, Vianney foi ordenado padre, aos 29 anos de idade, na cidade de Grenoble, França.

Naqueles tempos chamados “os séculos das luzes”, os dotes da razão eram considerados a verdadeira grandeza dos homens, e assim o futuro do padre Vianney parecia não ser muito animador, pois esses dotes lhe faltavam.

Por causa da sua falta de instrução, as queixas dos seus colegas contra ele eram constantes. Numa dessas ocasiões, em que um grupo estava reclamando de Vianney, ao bispo, este lhes respondeu: “Não sei se ele é instruído, sei que é iluminado”.

Realmente o padre Vianney era diferente. Naturalmente simples, de autêntica humildade, dele se irradiava algo superior à inteligência. Possuía uma visão mais elevada das coisas e das situações, e isso se manifestava nos conselhos que dava, na maneira de conversar com as pessoas, de ouvir os problemas e sugerir soluções.                      

Conta-se que antes de ser ordenado padre, um dia Vianney chegou, sem ser visto, ao local onde o Vigário e demais padres discutiam, em assembleia, se seria ou não viável ordená-lo e lhe dar a responsabilidade de uma paróquia, já que Vianney, segundo eles, era muito burro. Ao ouvir o que o diziam a seu respeito, Vianney esperou que os padres se retirassem, aproximou-se do Vigário e lhe disse: “Sr. Vigário, se Sansão derrotou o exército dos Filisteus, armado com apenas uma mandíbula de burro, o que o Sr. não fará com um burro inteiro?”

Somente quem possui uma real grandeza de alma e verdadeira humildade é capaz de propor uma questão como essa.

Como os padres de Ecully não se cansavam de reclamar de Vianney, ao bispo, talvez porque a luminosidade dele lhes ofuscasse o brilho, ele foi transferido para a paróquia da Aldeia de Ars-em-Dombes. Era uma pequena aldeia com cerca de 300 habitantes, e foi por isso que o padre Vianney ficou conhecido como o Cura d’Ars.

Era 9 de fevereiro de 1818, uma sexta-feira nevoenta, o dia em que o padre Vianney chegou em Ars, para cuidar de uma capela quase abandonada, e cuja população se interessava mais pelos cabarés do que por Deus.

A capela estava sempre vazia, então o padre Vianney se colocava diante do altar singelo e fazia o que mais amava fazer: rezava.

Ele pedia a Deus, com fervor, que lhe inspirasse um jeito de despertar nos corações endurecidos de Ars, um desejo sincero de voltar-se para as coisas divinas, pelo menos um dia na semana.

E logo lhe veio a ideia de ir visitar as pessoas em seus lares e lhes contar histórias de pessoas virtuosas, de pessoas que tiveram vida exemplar. Foi assim que em poucos anos os cabarés estavam vazios e a capela precisou ser ampliada para acolher os novos fiéis, que agora vinham até das localidades vizinhas para visitar aquele padre humano, sensível e terno, que sabia entender as misérias humanas e consolar os aflitos. Além disso, ele curava os doentes com apenas um aperto de mão.

Quando algum padre lhe perguntava qual o segredo de tudo aquilo, o padre Vianney lhe respondia: “Você já passou uma noite em oração?”

Ele acreditava no poder da oração e na resposta de Deus.

No dia 4 de agosto de 1859, o Cura d’Ars deixa os palcos deste mundo. E aquele homem que era tido como de inteligência muito curta, entrou para a história como Santo. Hoje ele é considerado, pelos católicos, como o padroeiro dos padres.

Mas, afinal, o que é humildade? Eis aqui uma definição: 

“A humildade é a virtude que reprime em nós o orgulho; disposição moral que nos lembra nossa fragilidade sem nos envilecer [depreciar, rebaixar]; tendência de nosso coração e de nosso espírito para combater nossos sentimentos de vaidade.”

“A humildade, enquanto virtude, é, por assim dizer, a perfeição da modéstia. Esta última é uma marca de bom gosto e de bom senso, uma das graças da linguagem, da decência e da conduta. A humildade é menos exterior; em nosso coração e em nosso espírito é um ato de alta razão, que nos eleva tanto mais quanto mais nosso sentimento e nosso julgamento sobre nós mesmos forem mais comedidos.[1]

 



[1] Extraído do termo humilité, do Nouveau Dictionnaire Universel, tome troisième. Paris, 1867.

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