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Acreditar apenas naquilo que se vê

ACREDITAR APENAS NAQUILO QUE SE VÊ?

 

            Algumas pessoas não acreditam em Deus, em espíritos ou coisas do tipo, por dizerem que “só acreditam naquilo que veem”. Seriam espécies de “seguidores de São Tomé”, tendo sido este o apóstolo de Jesus que afirmou precisar sentir as chagas do Cristo para acreditar que ele havia ressuscitado[1].

            No universo científico este modo de ver o mundo e entender o universo foi muito bem representado pelo positivismo de Augusto Comte. Para este filósofo francês, o método geral do positivismo consiste na observação dos fenômenos, opondo-se ao idealismo, por meio da promoção do primado da experiência sensível, única capaz de produzir a partir dos dados concretos (positivos) a verdadeira ciência (na concepção positivista), sem qualquer atributo teológico ou metafísico, subordinando a imaginação à observação, tomando como base apenas o mundo físico ou material. O positivismo nega à ciência qualquer possibilidade de investigar a causa dos fenômenos naturais e sociais, considerando este tipo de pesquisa inútil e inacessível, voltando-se para a descoberta e o estudo das leis (relações constantes entre os fenômenos observáveis)[2]. Em síntese, poderíamos dizer que, segundo o positivismo científico, apenas aquilo que pode ser observável por meio dos sentidos seria passível de ser conhecido, pesquisado e estudado.

            Este modo de pensar, ainda hoje presente em muitas pessoas, parece-nos um tanto quanto míope. Tais indivíduos não percebem que ao afirmar só acreditarem naquilo que veem, correm o risco de deixar de fora de suas reflexões muitas coisas que, a despeito de serem “invisíveis”, talvez estejam entre as maiores forças do universo. Tais são os valores éticos, como a honestidade, a generosidade, a justiça, a tolerância, a humildade, a boa fé, etc. Tais são os sentimentos, bons ou ruins, quais o ódio, a raiva, o ciúme, a tristeza, a inveja; ou a alegria, a felicidade, a paciência, o amor, etc.

            E para não ficar apenas no campo subjetivo dos sentimentos, devemos lembrar também que as quatro forças fundamentais da natureza – a força gravitacional, o eletromagnetismo, a força nuclear forte e a força nuclear fraca[3] – são todas invisíveis! O que sentimos e percebemos são apenas os seus efeitos. Aliás, caminhando ainda um pouco mais sobre o campo da física contemporânea, veremos que a maior parte do que se estuda hoje em dia são coisas, de certo modo, “invisíveis” aos nossos olhos, e inimagináveis apenas alguns anos atrás. Comecemos pela percepção do que seja um elétron, nas palavras de um dos grandes divulgadores contemporâneos da ciência:

“Os elétrons orbitam em torno do núcleo a grandes distâncias (em relação ao tamanho do núcleo), fazendo com que o átomo seja basicamente um espaço vazio. De fato, se inflássemos um núcleo atômico até que ele atingisse o tamanho de uma bola de tênis, os elétrons seriam encontrados a duzentos metros de distância!”[4]

            Juntemos a esta metáfora da bola de tênis esta outra informação, e vejamos o que podemos deduzir:

“Como o grande físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976) escreveu, ‘gostaríamos de poder falar sobre a estrutura dos átomos, mas nós não podemos falar sobre átomos usando uma linguagem ordinária’.20 Nossa linguagem é limitada pela nossa percepção bipolar do mundo, algo que encontramos anteriormente neste livro, quando discutimos como os mitos de criação tentam representar o Absoluto, que transcende essa polarização.

O segundo aspecto radicalmente novo que emerge do estudo da realidade quântica prescreve um papel surpreendente para o observador de fenômenos físicos: no mundo do muito pequeno, o observador não tem um papel passivo na descrição dos fenômenos naturais; se a luz se comporta como onda ou partícula dependendo do experimento, então não podemos mais separar o observador do observado. Em outras palavras, no mundo quântico, o observador tem um papel fundamental na determinação da natureza física do que está sendo observado. A noção de que uma realidade objetiva existe independentemente da presença de um observador, parte fundamental da descrição clássica da Natureza, tem de ser abandonada. De certo modo, a realidade física observada (e apenas essa!), ao menos dentro do mundo do muito pequeno, é resultado de nossa escolha.

            Não é difícil prever que essa nova física perturbou muita gente. A situação piorou em 1924, quando o príncipe francês Louis de Broglie, então um novato nos meios acadêmicos, sugeriu em sua tese de doutoramento que a dualidade onda-partícula não era uma peculiaridade da luz, mas sim de toda a matéria! Elétrons e prótons também eram tanto onda como partícula, dependendo de como decidimos testar suas propriedades. Elétrons, portanto, interagem em colisões com outras partículas como “pequenas bolas de bilhar”, mas também podem exibir padrões de interferência qualitativamente idênticos aos produzidos por ondas eletromagnéticas após atingirem um cristal. Assim, matéria e luz não podem ser descritas em termos clássicos. Nas palavras de Feynman, coisas em escalas muito pequenas se comportam de modo completamente diferente de tudo aquilo de que você tem experiência direta no seu dia-a-dia. Elas não se comportam como ondas, elas não se comportam como partículas, elas não se comportam como nuvens ou bolas de bilhar, ou pesos ligados a molas, ou qualquer outra coisa que você tenha visto em sua vida.[5]

            Diante disso, podemos concluir – claro que de uma maneira um tanto quanto simplista! – que aquilo que chamamos de matéria nada mais é, em escala microscópica, do que um bocado de “nada” (espaço vazio), salpicado aqui e ali de alguma coisa que ainda não sabemos bem o que é (se onda ou se partícula). Isto vale para um átomo de oxigênio ou uma barra maciça de ouro puro! Parece loucura ou misticismo? Pode até parecer, mas é ciência!

            Parece, portanto, que acreditar apenas naquilo que se vê pode nos levar a deixar de crer até mesmo naquilo que vemos. Pois é... Daí o astrônomo Carl Sagan nos ter dito que:

“Assim, a história da ciência – especialmente a da física – é um pouco a tensão entre a tendência natural de projetar nossa experiência cotidiana no universo e a discordância do universo dessa tendência humana”.[6]

            Ao afirmarmos que muito pouco se conhece hoje em dia que seja passível de ser observável pelos nossos sentidos, não queremos propor, como corolário necessário e imediato, que Deus e os Espíritos existam. Esta conclusão seria resultado de um salto lógico muito grande, para não dizer imprudente ou ingênuo. Contudo, o que ressoa claro a partir dos dados fornecidos pela ciência moderna é que não podemos ter a mente fechada para estas possibilidades. O fato de não serem vistos não pode mais ser fundamento para a afirmativa de que tais “entidades” não existam.

            Ainda conhecemos muito pouco, podemos dizer que uma parte infinitesimal do universo e seus mistérios. Porém, talvez menor ainda seja a nossa maturidade intelectual e emocional para lidar com as reflexões e possibilidades que o estudo do universo oferece, desde que estejamos livres de preconceitos científicos, filosóficos e religiosos. Mas pelo menos o “invisível” foi galgado a um patamar mais decente. Ele passou da periferia para o centro da ciência, sendo hoje objeto das mais modernas e vanguardistas pesquisas. Portanto, da próxima vez que você se questionar ou for questionado sobre aquilo em que acredita, antes de responder lembre-se destas palavras do cientista do século XIX, Allan Kardec: Se não devêssemos acreditar senão naquilo que temos sob os olhos, nossas convicções se reduziriam a bem pouca coisa.[7]

            É... Parece mesmo que ao ter escrito que “o essencial é invisível aos olhos”, de certa forma o “Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, tinha razão, pois 95% de tudo o que existe no universo é invisível aos olhos...[8] Pense nisso!

 

 

Equipe Filosofia no ar / DAL - 30/01/2013



[1] Evangelho de João, cap. 20, versículos 24-29.

[4] GLEISER, Marcelo. A Dança do Universo. Companhia das Letras, 2ª edição, São Paulo, 2002, p. 293.

[5] GLEISER, Marcelo. A Dança do Universo. Companhia das Letras, 2ª edição, São Paulo, 2002, p. 299.

[6] SAGAN, Carl. Variedades da Experiência Científica – Uma Visão Pessoal da Busca por Deus. Companhia das Letras, São Paulo, 2008, p. 55.

[7] KARDEC, Allan. Revista Espírita. Outubro de 1859. Os Milagres, p. 385.

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