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Ciúme

CIÚME

 

O ciúme é um sentimento doloroso que faz nascer, na pessoa que o prova, as exigências de um amor inquieto, o desejo de possessão exclusiva da pessoa [ou coisa] amada, o temor, a suspeita ou a certeza de sua infidelidade.[1]

 

Quem tem um cachorro em casa pode fazer uma ideia do que seja o ciúme, e observar as reações de um cão ciumento.

Nós consideramos tão natural esse sentimento, que talvez nem nos demos conta de que quando sentimos ciúme nossas reações são muito parecidas com as do cão.

Um dia desses, num de nossos estudos filosóficos em família, solicitamos aos adolescentes que fizessem um relatório do comportamento do cãozinho que faz parte da família, para no próximo encontro servir às nossas reflexão.

Bob é o nome do adorável cão da raça shitzu, que vive confortavelmente no apartamento como membro da família, em companhia dos três adolescentes, um garoto de 10 anos e duas garotas, uma de 14 e outra de 16 anos, além dos pais.

Chegado o dia da apresentação do relatório, o estudo foi divertido e muito instrutivo, e todos os membros da família admitiram ter, de vez em quando, comportamentos iguais aos de Bob.

No relatório constava o seguinte:

1.    Quando chega um estranho em casa, Bob late e ameaça o invasor mostrando seus miúdos dentes, já normalmente um tanto projetados para fora dos lábios. Embora bem pequeno, o cão vira uma fera, para defender seu território...

2.    Quando chega uma tia, que costumeiramente leva alguns petiscos caninos para Bob, ele a recebe fazendo festa. Se alguém se aproxima dela a uma distância de menos de um metro, ele avança, late e ameaça o atrevido, mordendo até, se este não se afastar prontamente do objeto de seu amor.

3.    Bob também tem o costume de proteger uma das meninas: aquela que o deixa dormir em sua cama, dá banho e faz suas vontades...

4.    Do garoto, Bob só se aproxima quando não tem quem lhe dê atenção, porque quando Bob entrou para a família o menino era ainda bem pequeno, e por vezes o incomodava com suas brincadeiras.

            Houve ainda outras considerações sobre o comportamento do Bob, e de outros cães conhecidos, mas estes itens foram suficientes para as nossas reflexões naquele encontro filosófico familiar.

Não há dúvidas de que, ao observar Bob, os membros da família reconheceram agir como ele em muitas situações.

- Quando outra garota se aproxima da minha amiga predileta, disse uma das adolescentes, eu tenho vontade de avançar na intrusa como faz o Bob...

- Ah, a mamãe age como o Bob, quando vê papai conversando com a vizinha, disse a outra garota.

- Eu detesto que mexam nas minhas coisas, e as defendo como o Bob, quando ganha um osso... se alguém se atreve, eu fico furiosa... confessou uma das meninas.

- Então imaginem se o Bob fosse um gigante e tivesse muito poder, o que não faria com quem ameaçasse suas posses!..., constatou o garoto.


Entre risos, olhares denunciadores e confissões voluntárias, a família discutiu sobre esse vício infeliz e infelicitador que se chama ciúme.

É admirável constatar que os adolescentes estão sempre dispostos a discutir sobre virtudes e vícios, e buscar soluções lógicas para uma vida mais feliz.

Muitas famílias de hoje esqueceram a arte de filosofar com os filhos, como faziam os filósofos Antigos. Mesmo pais que são professores de filosofia raramente praticam a arte de formar os caracteres de seus educandos com base nos diálogos simples, segundo a capacidade de compreensão das crianças.

Raramente as famílias se reúnem em torno de uma mesa para estudar, discutir sobre o que é uma vida boa, feliz, livre das perturbações que os defeitos do caráter acarretam.

Os resultados de nossos encontros semanais, de Filosofia no lar, geralmente são bem positivos.

Quando terminam os diálogos todos estão comprometidos a ajudar-se mutuamente a vencer os vícios e conquistar virtudes, exceto, é claro, o Bob.

Nossas conclusões sobre o ciúme, foram a seguintes:

- O ciúme é uma paixão triste, pois tem por base a posse ou a conservação de um bem qualquer, sobre o qual se acredita um risco de perda.

- Aquele que sentir em si essa paixão deve analisar com sinceridade se o meio usado para garantir o que ele deseja preservar é o mais adequado e trará o resultado esperado.

- Se bem observarmos, sendo a violência e as chantagens emocionais os meios para os quais mais apela o ciumento, perceberemos que esses meios levam sempre ao caminho oposto ao que se quer chegar, e só isto bastaria para provar sua ineficácia.

- Quando se quer obter o amor ou a admiração de alguém, o meio mais eficaz, e também o mais prático, são a confiança sincera e o desejo de felicidade para o ser amado. Se essa forma de agir não trouxer os resultados desejados, não será da forma contrária que se logrará êxito.

           

Encerramos com Descartes:

 

O ciúme é uma espécie de temor que se relaciona com o desejo de conservarmos a posse de algum bem; e não provém tanto da força das razões que levam a julgar que podemos perdê-lo, como da grande estima que temos por ele, a qual nos leva a examinar até os menores motivos de suspeita e tomá-los por razões muito dignas de consideração.[2]

Zombamos de um avarento quando ele é ciumento de seu tesouro, isto é, quando devora com os olhos e nunca quer afastar-se dele, de medo que lhe seja furtado, pois o dinheiro não vale o trabalho de ser guardado com tanto cuidado. E desprezamos um homem que é ciumento de sua mulher, pois isso é uma prova de que não a ama da maneira certa e tem má opinião de si ou sobre ela. Digo que ele não a ama da maneira certa porque se lhe tivesse um amor verdadeiro não teria a menor inclinação para desconfiar dela. Mas não é à mulher propriamente que ama: é somente ao bem que ele imagina consistir em ser o único a ter posse dela; e não temeria perder esse bem se não julgasse que é indigno dele, ou então que sua mulher é infiel. De resto, essa paixão refere-se apenas às suspeitas e às desconfianças; pois tentar evitar algum mal quando se tem motivo justo para temê-lo não é propriamente ter ciúmes.[3]

           

 

           

 



[1] Petit Robert, verbete: jalousie

[2] Descartes, As paixões da alma, art. 167

[3] Idem, art. 169.

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