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Sobre anjos e demônios

Sobre anjos e demônios

 

O homem é geralmente mais sensível ao mal que ao bem; o bem lhe parece natural, ao passo que o mal o afeta  mais; é por isso que, em todos os cultos primitivos, as cerimônias em honra ao poder maléfico são mais numerosas: o temor suplanta o reconhecimento.[1]

 

Não se pode negar que geralmente somos mais suscetíveis às impressões do mal que às do bem, mais propensos a valorizar o mau e que o bom; e por vezes mais cremos em Satanás que em Deus.

Para que possamos compreender melhor essa questão, precisamos fazer um breve passeio pela história da humanidade desde o homem primitivo.

           

Começando pelas crenças...

           

“A crença num poder superior é instintiva nos homens; encontramo-la, sob diferentes formas, em todas as idades do mundo. Mas se, com o grau de avanço intelectual em que chegaram hoje, os homens ainda discutem sobre a natureza e os atributos desse poder, quão mais imperfeitas não deveriam ser suas noções a esse respeito, na infância da Humanidade!”[2]

Precisamos convir que os “demônios tiveram, em todas as épocas, um grande papel nas diversas teogonias, e ainda que consideravelmente decaídos na opinião geral, a importância que se lhes atribui, ainda hoje, dá a esta questão uma certa gravidade, pois ela toca o fundo mesmo das crenças religiosas.”

           

O homem primitivo.

           

O quadro da inocência dos povos primitivos em contemplação ante as belezas da Natureza, que muitas vezes se pinta, em que admiram a bondade do Criador, sem dúvida é muito poético, mas fora da realidade. 

O homem primitivo é dominado pelo instinto. Os povos selvagens se ocupam exclusivamente com a satisfação das necessidades materiais, já que não têm outras. O sentido da razão, único que pode torná-lo acessível aos gozos puramente morais, às coisas abstratas, só se desenvolve aos poucos e gradualmente.

E, mesmo sem remontar às primeira idades, observemos as pessoas do campo, “e nos perguntemos que sentimentos de admiração despertam nelas o esplendor do Sol nascente, a abóbada estrelada, o gorjeio dos pássaros, o murmúrio das ondas claras, os prados salpicados de flores! Para elas, o Sol se levanta por hábito, e, desde que dê suficiente calor para amadurecer as colheitas e não tanto para as crestar, está realizado tudo o que elas pedem. Se olham o céu é para saber se fará bom ou mau tempo no dia seguinte; que os passarinhos cantem ou não, tanto faz, desde que não comam os grãos. Às melodias do rouxinol preferem o cacarejar da galinhada e o grunhido dos porcos; o que pedem aos regatos claros ou lodosos, é que não sequem nem inundem; aos prados, que produzam boa erva, com ou sem flores: eis tudo o que desejam, ou melhor, tudo o que apreendem da Natureza e, no entanto, já estão longe dos homens primitivos!”

           

Voltando aos homens primitivos...

 

“Nós os veremos ainda mais exclusivamente preocupados com a satisfação de necessidades materiais; o que lhes serve para prover essas necessidades e o que os prejudica, resumem para eles o bem e o mal neste mundo. Eles acreditam num poder extra-humano; mas, como o que lhes traz um prejuízo material é o que mais os toca, eles o atribuem a esse poder, do qual fazem, aliás, uma ideia muito vaga. Nada podendo ainda conceber fora do mundo visível e tangível, atribuem tal poder aos seres e às coisas que lhes são prejudiciais. Os animais nocivos são para eles os representantes naturais e diretos desse poder. Pela mesma razão, viram a personificação do bem nas coisas úteis; daí o culto prestado a certos animais, a certas plantas e mesmo a objetos inanimados.”

Segundo o filósofo Descartes, o horror é instituído pela natureza para representar à alma uma morte súbita e inopinada, de sorte que, embora seja às vezes apenas o contato de um vermezinho, ou o rumor de uma folha tremulante, ou a sua sombra, que provoque o horror, sente-se primeiramente tanta emoção como se um perigo de morte mui evidente se oferecesse aos sentidos, o que engendra repentinamente a agitação que leva a alma a empregar todas as suas forças para evitar um mal tão presente(...).[3]

“Durante muito tempo o homem não compreendeu senão o bem e o mal físicos; o sentimento do bem moral e do mal moral marcou um progresso na inteligência humana; somente então o homem entreviu a espiritualidade, e compreendeu que o poder sobre-humano está fora do mundo visível, e não nas coisas materiais. Esta foi a obra de algumas inteligências de elite, mas que no entanto não puderam exceder certos limites.”

 

Os princípios do bem e do mal.

 

“Como se via uma luta incessante entre o bem e o mal, e este último levar vantagem frequentemente; e, por outro lado, não se podendo racionalmente admitir que o mal fosse obra de um poder benéfico, concluiu-se pela existência de dois poderes rivais no governo do mundo. Daí nasceu a doutrina dos dois princípios: o do bem e o do mal, doutrina lógica para aquela época, porque o homem era ainda incapaz de conceber uma outra, e de penetrar a essência do Ser supremo. Como poderia ele compreender que o mal é apenas momentâneo, do qual pode sair o bem, e que os males que o afligem devem conduzi-lo à felicidade, favorecendo o seu adiantamento?”

O homem, cujas faculdades são restritas, não pode penetrar, nem abarcar o conjunto dos desígnios do Criador; aprecia as coisas do ponto de vista da sua personalidade, dos interesses factícios e convencionais que criou para si mesmo e que não se compreendem na ordem da Natureza. Por isso é que, muitas vezes, se lhe afigura mau e injusto aquilo que consideraria justo e admirável, se lhe conhecesse a causa, o objetivo, o resultado definitivo. Pesquisando a razão de ser e a utilidade de cada coisa, verificará que tudo traz o sinete da sabedoria infinita e se dobrará a essa sabedoria, mesmo com relação ao que lhe não seja compreensível.[4]

“O duplo princípio do bem e do mal foi, durante muitos séculos, e sob diferentes nomes, a base de todas as crenças religiosas. Foi personificado sob os nomes de Oromaze e de Arimane entre os persas, de Jeová e Satã entre os hebreus. Mas como todo soberano deve ter ministros, todas as religiões admitem poderes secundários, ou gênios bons ou maus. Os pagãos os personificaram sob uma multidão inumerável de individualidades, cada uma tendo atribuições especiais para o bem e para o mal, para os vícios e para as virtudes, e às quais deram o nome geral de deuses. Os cristãos e os muçulmanos herdaram dos hebreus os anjos e os demônios.”

 

Por que o temor geralmente suplanta o reconhecimento, ou a gratidão?

 

Após lançar um breve olhar sobre a trajetória do homem desde os seus primórdios, podemos compreender melhor o que muitas vezes se passa em nossa forma de pensar, sentir e agir.

Acima vimos que os cultos primitivos, as cerimônias em honra ao poder maléfico eram mais numerosas. Descartes chamou essa tendência de veneração, e a explicou em seu tratado das paixões:

A veneração ou o respeito é uma inclinação da alma não só para estimar o objeto que reverencia, mas também para se lhe submeter com algum temor, a fim de procurar torná-lo favorável; de maneira que só alimentamos veneração pelas causas livres que julgamos capazes de nos fazerem bem ou mal, sem que saibamos qual dos dois hão de fazer; pois temos amor e devoção mais do que simples veneração por aquelas de quem não esperamos senão o bem e temos ódio por aquelas de quem não esperamos senão o mal; e, se não julgarmos que a causa deste bem ou deste mal seja livre, não nos submeteremos a ela para procurar torná-la favorável. Assim, quando os pagãos mostravam veneração pelos bosques, fontes ou montanhas, não eram propriamente essas coisas mortas que reverenciavam, mas as divindades que julgavam presidi-las.[5]

“A doutrina dos demônios tem, pois, sua origem na antiga crença dos dois princípios do bem e do mal.” Hoje, que o homem já possui conhecimentos mais exatos dos atributos da Divindade, deve tomar esses atributos para averiguar se as suas crenças estão de acordo com eles.

“Se a essência de Deus continua a ser ainda um mistério para a nossa inteligência, compreendemo-la no entanto melhor que nunca, graças aos ensinamentos do Cristo. O Cristianismo, nisso de acordo com a razão, nos ensina que: Deus é único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas suas perfeições.”

“Se se tirasse a menor parcela de um só dos atributos de Deus, não teríamos mais Deus, porque poderia existir um ser mais perfeito.” Estes atributos, na sua plenitude mais absoluta, são, pois, o critério de todas as religiões, a medida da verdade de cada um dos princípios que ensinam. Para que um desses princípios seja verdadeiro, preciso é que não se choque com nenhuma das perfeições de Deus.”

Diante de uma análise racional e séria sobre a doutrina do mal absoluto, personificado nos demônios, em satanás ou em outra coisa qualquer cai por terra, e só restará a certeza de um Criador justo e bom.

 

 

 

Equipe Filosofia no ar / tc 11/02/2012



[1] O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, parte II, Origem da crença nos demônios.

[2] As citações entre aspas foram extraídas do livro O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, parte II, Origem da crença nos demônios.

[3] Descartes, Paixões da alma, artigos 89 e 90.

[4] A Gênese, cap. III - O bem e o mal - Origem do bem e do mal.

[5] Paixões da alma, art. 162, Da veneração.

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